Relato de um parto por Interrupção Médica da Gravidez

Perder um filho (que ainda carregamos no ventre) com dignidade e num ambiente acolhedor não devia ser um luxo mas um direito de todas as mulheres.

O Rafael viveu apenas 14 semanas e 5 dias na minha barriga. Nasceu e morreu no dia 22/7/2017, às 18:20, depois de um parto induzido e respeitado que durou o tempo de que precisámos… exactamente 9 horas. Sem pressas. Sem comentários depreciativos. Sem atitudes agressivas. Seguindo o protocolo de IMG por indução. Sim, é possível isto tudo acontecer ao mesmo tempo.

Às 12 semanas, na ecografia morfológica, levantaram-se suspeitas de Continuar a ler

Como nasce uma flor

Algo me disse que era melhor não deixar o depósito de combustível na reserva. Saí já quando todos dormiam para ir ao posto de combustível e aquela preocupação desvaneceu-se. Às 3h da madrugada do dia seguinte, acordei e percebi que estavas a tomar um duche. Vieste depois ter comigo e disseste que achavas que seria agora. Que já tinhas avisado a tua mãe, que já vinha a caminho para ficar com ele, e a Márcia que iria lá ter. As contrações estavam a surgir, ritmadas, ias parando em silêncio por uns momentos. Pegamos nas nossas coisas, mais qualquer coisa para comer e não nos falharem as forças, e lá fomos.

Àquela hora da madrugada não se via vivalma, o caminho foi tranquilo e pontuado por contrações que se tornavam mais dolorosas pela posição em que se viaja de carro.

Chegamos por volta das 4h, não sei bem. A noção de tempo ficou meio distorcida. Queria que sentisses que tinhamos tudo controlado, que desta vez sabíamos o que estava a acontecer e como fazer valer a nossa vontade, contra o que nos fizesse frente.

Ajudei-te a sair do carro e foste em direção à porta da maternidade, de onde a Márcia, que lá nos esperava, saiu ao teu encontro. Abraçaram-se e, após mais uma descarga de oxitocina, percebi pela vossa reação que a bolsa das águas tinha rebentado. Fomos instalados no quarto disponível, que era o mais distante no corredor para a sala de partos. Foste observada passado um pouco e todos ficámos surpreendidos pelo ponto avançado onde já nos encontravamos.

Quando nos deixaram sós com a Márcia, foi bom sentir a tranquilidade que nos assolava, inesperadamente. Conversavamos muito, não faço ideia já sobre o quê, com descontração, intervalando com breves momentos de contração, em que faziamos silêncio em comunhão. E assim seguimos, descontraindo e contraindo, pacientemente. Sabendo que se trata de um caminho, soubemos tirar partido da viagem, sem desesperarmos pelo destino. Estivemos em paz. Aceitámos que o caminho é longo, mas escolhemos fazê-lo felizes, com sorrisos, sentimo-nos leves e determinados. A confiança tem uma base de fé em nós mesmos, no teu corpo, no teu querer. Minha pequenina, o que nós já passámos até chegar a este patamar. Torna ainda mais inacreditável o que nos estava a acontecer.

Quando as contrações foram ficando mais intensas, massajámos as tuas costas para aliviar a dor, qual fio condutor. A Márcia trouxe uma essência que perfumou o quarto. São as pequenas coisas que nos aguçam a memória. Sei que aquele cheiro me vai fazer recordar aqueles momentos. Os sentidos talham a memória com precisão. Massajávamos onde pedias, onde te aliviava a pressão que sentias em crescendo. E crescendo foi o balanço que ganhavas. Quis ser eu a massajar-te sempre que as contrações chegavam, queria muito sentir-me parte daquilo por que passavas. Sabes que te amo? Queria muito esforçar-me em conjunto contigo, queria suar, queria sentir a fadiga que estavas a sentir. Carregaria os pedregulhos que fossem precisos, se tal contribuisse para o teu labor. As contrações estavam fortes e, de pé, passaste a apoiar-te sobre a cama. Fomos finalmente tomar um duche, a água quente iria ajudar. Receei que tivessemos jogado esse trunfo cedo demais, não conhecia o caminho e não sabia se estavamos perto ou longe. Por momentos, disseste que não ias aguentar. Para ser franco, não fiquei preocupado por esse desabafo. Sei que és capaz, os teus olhos diziam que continuavas ao leme naquelas águas conturbadas.

Finalmente, estava a acontecer. Sentiste a vontade, aquela de que ouvimos falar de uma forma tão simples. A vontade de fazer força surgiu e disseste que ia nascer, já, ali, logo, naquele instante. Mas não foi logo. Estavas de pé e quase lá. Deitaste-te na cama e foste à boleia para a sala de parto. Caminhei ao teu lado, em passo apressado, em esforço para te acompanhar como sempre. Pediram-me para esperar à entrada e levaram-te. A Márcia disse-me que tinha que vestir aqueles trajes de hospital para poder entrar. Fiquei com ela, a olharmos um para o outro, incrédulos por não me acolherem juntamente contigo. Fiz aquilo que sentia que tinha que fazer. Espreitei uma porta, à entrada, e entrei numa despensa de onde tirei as proteções que fui capaz de encontrar, coloquei-as e fui até à sala onde estavas. Tentavas, naquele momento, deitar-te ou sentar-te numa marquesa, uma qualquer coisa dessas. Estranhei mas não questionei, não podia desviar-te da tua procura da melhor posição. Logo disseste que não conseguias assim e, virando-te, apoiaste a cabeça naquela marquesa.

E assim foi que a nossa flor nasceu. É aliás assim que temos vivido a nossa vida. Virados para nós, para o que nos importa, de cabeças juntas, com sussurros de amor aos ouvidos, às escuras se preciso for, com o inevitável cafuné. Assim que ela saiu do teu ser e passou ela a ser, por ela só, foi para o teu peito e a abraçámos. Estava ali connosco, outra ternura, fruto do nosso amor e acabado de colher.


Quando pensamos que já amamos com todo o nosso ser, estamos claramente enganados:

O mundo que escolhi

Gira num eixo de amor,

Seja por ti, seja pelo Gui,

Seja pela nossa nova flor.

ESTAS MEMÓRIAS SÃO ESCRITAS PARA A MINHA HEROÍNA DESTA AVENTURA (E DE MUITAS OUTRAS). E ESTA IMAGEM É PARA A NOSSA FLOR, NOSSO AMOR.

Escrito pelo David, pai da Bia e do Gui

A 15 de Julho, (re)Nasci

Concebida com muita luz e amor. Carregada no ventre com orgulho e vontade de ser conhecida.

Desejada, amada, querida, acompanhada.

Assim fui eu.

O receio da incerteza, o vazio. A dor e a cegueira do abandono. Um abandono que não é Continuar a ler

Sobre os partos naturais, os nascimentos Bio e o empoderamento da mulher

Não querer amamentar ou não querer parir naturalmente. Escrever sobre isto de forma crítica, assertiva, agressiva quiçá. De vez em quando aparecem opiniões contrárias às minhas, quem diria. Em tempos enervei-me, queria responder de uma assentada, sentia-me a corroer por dentro. Injustiça, era o que sentia.

Hoje voltei a ler um desses textos, bem na diagonal, pois sabia que Continuar a ler

Márcia, a minha doula

Olhos curiosos e um sorriso gentil. Foi sempre assim que te vi. Há um ano, quis a vida que nos cruzássemos de novo. Uma conversa informal sobre uma obstetra que conhecias, um convite para fazer yoga contigo, momentos de ternura e de partilha no curso da parteira Naoli. E eu, que até já tinha uma doula, vim para casa sonhar contigo. Estive uma semana a desejar estar contigo, conversar contigo, que fosses tu a doular-me. Durante uma semana fomos falando pelo chat. E eu a sentir que estava a cometer adultério. O meu coração, todo o meu corpo, dizia que era contigo que queria estar. Continuar a ler

Relato de parto da Bia

12 de Outubro, nasci há 35 anos, tu há 2 meses.

Tínhamos chegado às 40 semanas. Uma gravidez santa, fruto de uma conceção espontânea. Uma barriga enorme, com bastante líquido para uma bebé que se adivinhava grande. E uma vontade forte de parir de forma natural.

O Gui tinha nascido às 38 semanas. Agora os sintomas de pré-parto começaram às Continuar a ler

O parto do Gui

Peço uma cesariana e fica o assunto arrumado. Era isto que eu pensava a meio da gravidez do Gui, sempre que sentia medo do parto natural. Como se fosse a solução para todos os males. Até que cheguei à preparação para o parto e, com a Enf. Isabel Cruz, descobri o outro lado do parto natural. Passei a desejá-lo. Escolhemos o Hospital de Cascais pela proximidade física e porque nos foi dito que tinham muito boas condições. Mas aquilo que eu sabia na altura não se compara ao que sei hoje. E confiei. E esse foi o meu erro. Um parto muito Continuar a ler