Desafio difícil este, deixar o coração falar de infertilidade, pela Andreia

Pensei em falar da dor de saber na véspera de Natal que não vamos conseguir ter filhos sem tratamento. Do choque, da verdade sem paninhos quentes e floreados. Ou do que senti ao iniciar o 1º dia do ano com injeções hormonais para estimular os ovários. Da dor e da revolta de receber um negativo e não querer saber ler o resultado da análise. De querer muito acordar de um pesadelo que parece nunca mais acabar… Do esconder o problema, não o conseguir aceitar e não querer falar com ninguém sobre ele. Da difícil gestão familiar quando não queremos desiludir as expectativas dos pais!

Podia também falar sobre a dualidade de ficar feliz com a gravidez de uma amiga e ficar triste a sonhar como será ver as risquinhas no pauzinho, naturalmente evito as visitas iniciais, são as que me fazem sentir pior!

Também pensei em falar da importância de conversar com quem partilha desta dor, como foi o caso da amiga especial C. que conheci num fórum de fertilidade e com quem desabafei tanto naquele mês de Fevereiro, nem sei bem se ela teve noção do quanto me ajudou! Afinal era a única pessoa que sabia o meu segredo, com quem eu falava sem medo! Ou da F., da S., da A. ou R. com quem tive e tenho longas conversas!  Vibrei com os positivos delas mesmo não sendo meus. E chorei também com as desilusões……

Falar de 2012 é falar do tal annus horribilis, fizemos a passagem do ano com o peso do 1º tratamento, mais dois tratamentos nos meses seguintes sempre com o mesmo desfecho e terminámos o ano com uma mudança de casa. Entre desemprego, tratamentos, desespero, angústia e medo, muito medo. Desgaste emocional, desgaste financeiro, desgaste a todos os níveis, amor com horas e dias marcados e cada 1º dia da menstruação o luto! O luto que se repete todos os meses, luto pela gravidez que não se consegue, pelos sonhos adiados e pelo tempo que passa sem a resposta que se deseja.

Mas falar de tudo isto apesar de real não ia adiantar nada. Por mais verdadeiro que seja, uma coisa eu sei, ninguém está nos meus sapatos e solidariedade piedosa é qualquer coisa que me faz comichão, pois se uns compreendem, outros há que não conseguem!!

O que considero muito importante é que 2012 também trouxe a esperança, a mudança e a sensação que somos capazes de fazer uma limonada com o raio dos limões azedos que nos estavam reservados.

Ao 7º ano de casamento passamos por uma enorme prova. Estamos no 11º ano, se nos abalou? Sim! Não é fácil ouvir que se estivéssemos casados com outras pessoas não teríamos conhecido a doença! Se nos mudou? Com toda a certeza, mas também nos uniu, ainda mais! Se tenho medo? Ui, sinto pânico com a possibilidade de nunca conseguirmos!

Sempre acreditei que nada acontece por acaso, até já pensei que às tantas precisava deste abanão, para “crescer”, para tomar consciência que a vida é dura, para não achar que a minha vida é perfeita, que nada me falta porque tenho saúde, um marido que amo e que é o meu pilar, uma família linda que nos apoia incondicionalmente, dois cães maravilhosos e os melhores amigos do mundo! Mas eu continuo a achar que tenho uma vida perfeita…. Perfeita com as suas imperfeições! Então porquê eu, porque nos tinha de acontecer isto, se já damos valor a tudo o que nos rodeia?

Mas depois penso, não será assim também nos casamentos com filhos? Não temos todos problemas? Sim é verdade, continuo a dizer que sou feliz, sei que posso ser mais, mas sim sou feliz!! E sou feliz porque na grande maioria dos dias faço para que os meus problemas não me deitem abaixo!

E aos 38 anos continuo a acreditar como no 1º dia, no amor à 1ª vista que nos levou um ano e meio depois a subir ao altar, na amizade para a vida, e porque não, acreditar também que o futuro tem reservado surpresas boas!A infertilidade é um caminho duro, é uma entrada sem bilhete de saída, não se deixa de ser infértil por se ter um filho. Mas finalmente encontrámos o nosso caminho, nem certo nem errado, o nosso. Estamos em paz, tranquilos e expectantes no futuro. Vamos realizar o nosso sonho, como diria alguém não sabemos como nem quando mas vamos sê-lo! Eu vou ser mãe!

E quero acreditar e contribuir para que infertilidade não rime só com infelicidade, pois eu sei que rima também com amizade, com partilha e principalmente com muito amor.

Carta de uma mulher infértil ao Mundo

(Nome) sabe que a amas e queres que seja feliz. Sabe que gostavas que ela voltasse a ser a mesma de antes. Mas ultimamente ela parece-te ansiosa, deprimida e obcecada com a ideia de ter um bebé. Provavelmente é difícil entenderes por que ficar grávida é tão importante e parece ocupar cada segundo da sua vida. (Nome) espera que depois de leres este pequeno texto, escrito por psicólogos com experiência, entendas um pouco melhor a dor que ela está a sentir. Podes também ficar a saber melhor como ajudar.

Alguns efeitos da infertilidade

Pode ser surpresa, mas 1 em cada 6 mulheres que querem ter um bebé não o consegue. Há muitas razões para isso: bloqueio das trompas de Falópio, mau funcionamento ovárico, desiquilíbrios hormonais, exposição a substâncias tóxicas, baixa quantidade de espermatozóides do marido, entre muitas outras causas. E ainda por cima, quando uma mulher chega aos 35 anos de idade, torna-se mais difícil engravidar, principalmente porque muitos dos óvulos que produz são de baixa qualidade.

Todas estas barreiras para engravidar são físicas ou fisiológicas, não são portanto barreiras psicológicas. As trompas não se bloqueiam porque a mulher está “muito ansiosa” para engravidar. Quando existem anticorpos na mulher que matam o esperma do marido, por exemplo, eles não desaparecem se a mulher relaxar. E um homem também não pode fazer com que o seu esperma se mova mais depressa apenas com uma atitude optimista.

Sobre conselhos “bem intencionados”

Quando alguém de quem gostamos tem um problema, é natural tentarmos ajudar. Se não houver nada de específico que possamos fazer, tentamos pelo menos dar um conselho. Muitas vezes utilizamos as nossas experiências pessoais ou casos que envolvam outras pessoas que conhecemos: recordas-te de uma amiga que tinha problemas para ficar grávida e que essa amiga conseguiu só porque foi com o marido de férias para uma ilha tropical. Por isso achas que faz sentido sugerir a (Nome) para meter também férias com o marido…

(Nome) aprecia o teu conselho, mas a sugestão não lhe serve de grande coisa, porque o problema tem uma origem física. Pior ainda: a tua sugestão deixa-a mais magoada. Muito provavelmente já outras pessoas lhe disseram isso imensas vezes. Imagina como é frustrante ela ter de ouvir que outros casais engravidaram “magicamente” durante umas férias, simplesmente fazendo amor. Repara que (Nome) está no meio de tratamentos de fertilidade. Nestas circunstâncias, fazer amor e conceber um filho não são coisas muito relacionadas uma com a outra. Nem imaginas quanto é difícil estar a tentar conseguir um bebé e quanto é desanimador sentir que no final de cada mês se voltou a falhar.

O teu conselho bem-intencionado é um esforço para transformares um problema extremamente complicado num problema demasiadamente simplificado. Ao simplificares o problema desta maneira, retiras importância ao que ela sente, menosprezando as suas emoções. E ela sente-se obviamente aborrecida e chateada contigo nestas circunstâncias.

A verdade é que não há nada de concreto que possas fazer para a ajudar. A melhor ajuda que podes dar é a tua compreensão e apoio. É mais fácil apoiá-la se souberes como pode ser devastadora a incapacidade de ter um bebé.

Por que pode ser tão devastador não ter um bebé?

As mulheres são geralmente educadas na expectativa de um dia terem um bebé. Muitas vezes imaginaram ser mães desde que em miúdas brincaram com as bonecas ou desde que começaram a obervar no mundo à sua volta a relação próxima entre “ser mulher” e “ser mãe”. Quando (Nome) pensa que não pode ter um bebé, pode sentir-se como uma mulher “defeituosa”, a quem falta a capacidade de gerar e de ter filhos.

Por vezes, não ter um bebé é um factor de vida ou de morte. Na Bíblia, por exemplo, Raquel era estéril e disse a Jacob “Dai-me filhos ou morrerei…” (Génesis, 30). Comentando esta afirmação, alguém disse que “não ter filhos é como morrer aos poucos”. E isto sucede porque ter filhos é uma das formas de escaparmos à morte; é um modo de não termos medo da morte.

São tão poderosos os sentimentos relacionados com a infertilidade, que a pessoa pode sentir-se a morrer, ou mesmo querer morrer. E por enquanto (Nome) nem sequer tem a certeza de que vai conseguir ter um bebé.

O que oferece a medicina moderna à mulher infértil?

Na década passada a medicina reprodutiva fez grandes avanços. O uso de certos medicamentos pode aumentar o número e o tamanho dos óvulos que a mulher produz, aumentando muito as oportunidades de fertilização. Na técnica de fertilização in vitro (FIV) extraiem-se os óvulos da mulher e junta-se com o esperma do homem, num “tubo de ensaio”, fazendo-se assim a fertilização no laboratório. O embrião é colocado depois no útero da mulher. Mas existem muitas outras técnicas de reprodução assistida.

Apesar das esperanças que estas técnicas oferecem, são um “osso difícil de roer”. Alguns procedimentos de alta tecnologia só existem em certas clínicas e isso pode obrigar a (Nome) a viajar grandes distâncias. Quando o tratamento está disponível por perto, ela tem de suportar as visitas regulares ao médico, aplicar injecções diariamente, compatibilizar o trabalho e a vida social com esses procedimentos e ainda gastar consideráveis somas de dinheiro. Tudo isto é acompanhado por uma série de exames embaraçosos e muitas vezes dolorosos.

A infertilidade é uma condição médica muito pessoal, que (Nome) pode não estar em condições dar a conhecer no emprego ou de partilhar com o seu patrão. Por isso às vezes inventa desculpas cada vez que o tratamento coincide com o horário de trabalho.

Depois de cada esforço médico para engravidar, (Nome) tem ainda de aguentar a espera, sempre salpicada por ondas de optimismo e de pessimismo. É uma verdadeira montanha russa emocional. Não sabe se os peitos inchados são um sinal de gravidez ou um efeito secundário dos medicamentos de infertilidade. Se vê uma mancha de sangue na roupa interior, não sabe se é o embrião a implantar-se ou se é o período que está a começar. Se não engravida depois de uma tentativa “in vitro”, pode sentir que o desejo de um bebé morreu mais um pouco.

Ela tenta viver com este tumulto emocional. Se a convidam para uma festa de boas vindas ao bebé de uma amiga, se a convidam para um baptizado, se sabe que uma amiga ou colega está grávida, se um dia lê uma história de um recém nascido abandonado, podes imaginar a angústia e a raiva que ela sente com as injustiças da vida! Porque a infertilidade penetra em quase todas as facetas da vida, porque surpreende que ela esteja obcecada em chegar à meta?

(Nome) pergunta-se a cada mês se será desta vez. E acaba por não ser, pergunta-se se tem energia para tentar de novo. Poderá pagar outro tratamento? Quanto tempo continuará o marido a apoiá-la? Será obrigada a abandonar o seu sonho?

Por todas estas razões, quando falares com (Nome), tenta sentir empatia com as dificuldades que atravessam a sua cabeça e o seu copração. Ela sabe que te preocupas com ela, e pode necessitar de falar contigo sobre oue está a viver. Mas ela sabe que não há nada que possas fazer ou dizer para a ajudar a engravidar. Ela tem medo que lhe faças uma sugestão que cause ainda mais desespero.

Que podes fazer por (Nome)?

Podes apoiá-la e não criticares nenhum dos passos que ela esteja a dar para se proteger de um trauma emocional. O medo, o silêncio e a fuga podem ser apenas uma forma de ela se preservar a si própria de mais sofrimento. Podes dizer-lhe algo como: “Estou preocupado contigo. Agora que li este folheto, tenho finalmente uma ideia de como isto é difícil para ti. Gostava muito de te poder ajudar. Estou aqui para te ouvir e chorar contigo, se sentires vontade de chorar. Estou aqui para te animar quando te sentires sem esperança. Podes falar comigo. Eu vou estar contigo a partir de agora”.

Lembra-te que (Nome) está perturbada e muito angustiada. Escuta-a, mas não a julgues. Não tornes pequenos os seus sentimentos. Não tentes querer fazer ver que tudo está bem. Não lhe vendas fatalismo com declarações como “O que tiver que ser será”. Se esse fosse o caso, que sentido fariam os tratamentos de reprodução assistida? Saberes e quereres ouvi-la seriam já uma ajuda muito grande. As mulheres com problemas de infertilidade sentem-se à parte, diferentes das outras pessoas. A tua capacidade de ouvir e de apoiar ajuda-a a lidar com toda a tensão que está a viver. A infertilidade é uma das situações mais difíceis que ela teve de enfrentar na vida.

Exemplos de situações problemáticas

Tal como um quarto desarrumado pode ser um lugar cheio de obstáculos no caminho de uma pessoa cega, a vida quotidiana pode também estar cheia de dificuldades para uma mulher infértil. Estas dificuldades não existem para as mulheres que têm filhos facilmente.

Imagina que ela vai a casa de uma cunhada para uma reunião familiar. Uma prima está a dar de mamar ao bebé; os homens estão a ver um jogo de futebol e as outras mulheres falam sobre os filhos. A (Nome) sente-se excluída e distante.

O dia de Natal e a passagem de ano são exemplos de outras festas particularmente difíceis para ela. Nestas ocasiões ela recorda o que pensou o ano anterior: “Para o ano vou ter o meu bebé e vou trazê-lo aqui para junto da minha família.”

Cada uma destas festas representa uma complicação para quem não pode ser mãe. No dia se São Valentim pode recordar o namoro, o amor, o casamento e a família que ela sonhou formar. O mesmo para o dia da mãe e o dia do pai. São dificuldades umas atrás das outras.

Actividades simples como caminhar na rua ou ir ás compras a um centro comercial são também saídas com surpresas a qualquer momento. Ver as outras mulheres a empurrar os carrinhos de bebé é algo que pode doer. Quando (Nome) vê televisão é bombardeada por publicidade de artigos de bebé a toda a hora.

Num jantar alguém pergunta há quanto tempo é casada e se já tem filhos. Nestas ocasiões sente vontade de sair a correr, mas não pode. Se ela falar sobre a sua infertilidade é provável que oiça um dos tais conselhos bem intencionados: “Relaxa, não te preocupes, quando menos esperares…”, ou ainda “Tens sorte. Eu estou farta dos meus filhos, gostaria de ter a tua liberdade”. Estes são comentários típicos que fazem com que ela tenha vontade de esconder-se debaixo da mesa.

Refugiar-se no trabalho e na carreira profissional nem sempre é possível. Ver cada mês que o sonho não se cumpre, pode consumir energias para avançar na carreira. E à volta as outras colegas de trabalho vão ficando todas grávidas.

Resumindo

Por não estar a conseguir ter filhos, a vida é stressante para (Nome). Ela está a fazer o melhor que pode para sobreviver a este problema. Por favor, entende: às vezes ela está deprimida, outras está ansiosa, física e emocionalmente exausta. Ela não é agora tal como a conhecias; provavelmente nem vai querer fazer as coisas que antes fazia ou desejava fazer.

Ela não tem ideia de quando e como o problema será resolvido. Ou sequer se será resolvido. Poderá ter êxito, optar pela adopção ou ter de assumir uma vida sem filhos. Por enquanto ela ainda não sabe o que vai acontecer. Tem que levar as coisas dia a dia. Só não sabe porque tem de passar por isto tudo. De uma coisa está certa: vive com uma angústia tremenda todos os dias.

Por favor, olha por ela. Ela precisa e deseja que o faças.

doula