O internamento da Bia

Minha pequenina. Era assim que eu te via. Acabada de nascer, num parto inesquecível, depois de uma gestação tranquila, fruto de uma concepção maravilhosamente espontânea. 2 dias de vida e ali estávamos nós, com uma suspeita de infecção no cordão umbilical. Tinha visto uma pequena mancha de sangue na tua roupa e chamei a enfermeira. Não tinha cheiro nem odor. Decidiram puncionar-te para colher sangue.

A enfermeira não descobria as tuas veias. A pediatra veio tentar ajudar. Cheia de anéis, colares, unhas de gel, espremeu-te para tentar obter um pouco do teu sangue. Saiu, ansiosa. Voltou e o seu cheiro já não era de perfume, mas sim de tabaco.

O hemograma estava ligeiramente alterado. Terias que ficar internada a tomar antibiótico, por suspeita de sepsis neonatal. O hospital onde estávamos era privado e, por ser fim-de-semana, ninguém nos conseguiu dizer qual seria o custo de ficarmos num quarto privado. Optámos por pedir transferência para um hospital público. Disseram-nos que seria impossível sair, nunca te poderíamos levar no nosso carro. Eles estavam lá para zelar pela tua saúde.

O dia avançava e tudo o que eu queria era ter-te nos meus braços e amamentar-te sempre que desejasses. A enfermeira explicou que, por vezes, os bebés choram e não é de fome, pelo que eu não deveria estar sempre a amamentar. Então o que faço? perguntei. Chama-me e logo vemos o que fazer. Fui para a janela, de costas para a porta, amamentava-te sempre que querias. Se entrava alguém, interrompia suavemente, para não ter que travar esta luta. Todos queriam que ganhasses peso, mas não queriam que eu amamentasse livremente. A pediatra já me tinha dito que iria ser necessário dar leite artifical, porque ela estava a desidratar. Foi por isso que não tinham conseguido tirar sangue, porque estava espesso, estavas a desidratar. As suas palavras em tom de bagaço foram facas no meu coração. Não lhe respondi. Chorei com a minha doula quando a médica saiu do quarto.

Fui para o Facebook, escrevi num grupo onde só há colegas CAMs (conselheiras em aleitamento materno). Uma dizia “mas quem é que te proibe de amamentar?! pega nela!”, outra dizia “havia de ser comigo! muito pele com pele, maminha, tudo vai ficar bem!” E eu navegava nas minhas lágrimas, por entre ondas revoltas dos meus conhecimentos, emoções, dúvidas e anseios.

Até que uma chamada chegou. No WC, tentei conversar com uma amiga enfermeira, enquanto lá fora o teu irmão estava ávido da minha atenção. Foi ela que me explicou que eu poderia chamar uma ambulância privada e pedir transferência para um hospital público. Falei sobre isto com a tal pediatra, que me disse que no HSFX todas as camas estavam ocupadas, seria impossível.

Ao final da tarde, aceitámos ficar uma noite. O dia seguinte era início da semana, estaríamos com forças renovadas e alguma ajuda iria chegar. Após esta decisão, a pediatra disse-nos que tinha uma cunha no HSFX e tinha conseguido arranjar uma vaga para nós.

Ias a dormir quando entraste na ambulância. Nenhum de nós pode ir contigo. O meu coração mirrou e foi com extrema preocupação que te seguimos no nosso carro. Minha pequenina, queria tanto conseguir proteger-te! Estavas a dormir à chegada do hospital e o meu coração serenou.

Numa ala própria do HSFX ficámos num quarto privado com WC. Não me recordo do nome, mas creio que é uma zona intermédia, antes de passarmos para a pediatria. Perguntei se podia usar o duche do WC, uma enfermeira disse-me que não, que eu devia era ir para casa, que eles cuidariam de ti. Voltei a perguntar a outra enfermeira que me disse que sim, não havia qualquer problema. À chegada, a enfermeira disse-me para eu pedir leite artificial assim que eu pensasse que tinhas fome. “A minha filha é amamentada. Este hospital não é amigo dos bebés?” Ela respondeu-me que ninguém quer que os bebés passem fome. Será que ela pensou que eu queria? Passado um pouco, outra enfermeira perguntou-me pela tua chucha. Voltei a comentar que tinha visto os cartazes da iniciativa da UNICEF dos hospitais amigos dos bebés, mas não obtive resposta.

Achavam que estavas a desidratar porque fazias pouco chichi. Nos primeiros dias de vida é mesmo assim: a mãe tem colostro, consideramos 1 fralda de xixi por dia de vida, até ao 4º dia. Eu sabia isto. Mas elas insistiam para darmos um biberão de leite artifical. Consegui proteger-te durante todo o dia. À distância, tentava conversar via chat com uma conhecida médica nos grupos de Facebook por dar apoio na amamentação. Tentámos usar a sonda na mama, para ingerires mais leite. Não bebeste muito. Ao final do dia, o teu pai foi para casa. A médica de plantão veio com uma médica da neonatologia dizer que era imprescindível que bebesses leite artificial. Perguntei se não era possível usar soro, uma vez que estavas já com acessos. A subida de leite estaria para breve. Disseram-me que não fazia sentido, pois o leite artificial é muito mais nutritivo. Sozinha contigo, desgastada, desnorteada, aceitei oferecer o biberão.

Prepararam 30ml para o teu estômago do tamanho de um berlinde. Bebeste talvez metade. A enfermeira simulou que te deixava cair para que acordasses e bebesses mais leite. Eu queria evitar a confusão dos bicos, mas ninguém quis trazer um copinho ou uma seringa para experimentarmos. Outra enfermeira dizia que não percebia o meu fundamentalismo em querer amamentar. Discutimos. Colocaram-te uma sonda nasogástrica, asseguraram-me que não ia custar nada. Choraste muito. Foi horrível. Sempre que te picavam para te tirar sangue, era horrível. O acesso venoso por vezes bloqueava e tiveram que te picar várias vezes, nos braços, nas pernas. E eu ficava ali, ao teu lado, oferecia-te o meu dedo com glucose (e a chucha, mãe? onde está?) e sussurrava-te ao ouvido. Minha pequenina, porque não te consigo proteger?

Na madrugada dessa noite, chegou uma enfermeira CAM. Conseguimos conversar um pouco. O seu colega, apesar de não ser CAM, perguntou-me porque não ia extrair leite com a bomba deles. Eram 3 horas da manhã, deixei-te no quarto e fui para uma salinha minúscula, na outra ponta do corredor, extrair leite. A bomba não poderia sair dali. Era a mesma salinha onde os pais iam comer.

O leite subiu finalmente e, ao menos, poderias beber do meu leite. Na manhã seguinte, o teu pai chegou e eu pude tomar um duche. Ele estava preocupado porque eu só tinha um cadeirão para descansar. Mas a verdade é que esse era o menor dos meus problemas, pois tínhamos passado uma noite em que tentaram obrigar-te a comer fosse de que forma fosse.

Pesávamos as tuas fraldas de chichi. Depois da subida do leite, deixou de haver este problema, como seria de esperar. Teríamos que ficar internadas 8 dias, o período de antibiótico. Os dias passavam lentos. Alternava entre a minha necessidade extrema em estar ali e o tempo que passava com o teu irmão quando ele nos visitava.

A meio fomos transferidas para a ala da pediatra. E a luz começou a entrar na nossa vida. Profissionais dedicados, amáveis, vi enfermeiras a embalar bebés a chorar quando as mães estavam no WC ou tinham saído para fazer uma refeição.

Partilhámos o quarto com uma mãe e uma bebé com 6 meses, que estava a aguardar lugar para cirurgia ao coração, hospitalizada desde que nasceu. A bebé não ganhava peso, a mãe obrigava a comer, ela chorava, vomitava, colocavam uma sonda. A fisioterapeuta aconselhava a mãe a fazer vários exercícios com a bebé, que eram ignorados. Nós estávamos junto à janela. Tínhamos a cama da princesa Birrinha, mas tu sempre serena. A televisão ligada no canal das telenovelas durante todo o dia, de noite em pedia para baixar o som e poder descansar. Durante a noite, a outra mãe dormia profundamente, por vezes a sua bebé chorava ou as máquinas apitavam e ela não respondia. Pensei muitas vezes como devia ser duro estar assim, com a vida suspensa, com uma bebé tão nova, à espera de cirurgia. Ajudou-me a relativizar todo o meu cansaço. Mesmo quando tu acordavas com o barulho do meu cadeirão a reclinar. Valeu-nos um sling de argolas para estares junto a mim, em segurança. Ninguém comentou a sua utilização durante a noite. Por vezes, ouviamos “mas está a mamar outra vez?” e eu sorria.

Na última noite, vagou um quarto e consegui descansar numa cama ao lado do teu berço. Creio que já contávamos com 9 ou 10 dias desde que tinha saído de casa para parir. Finalmente tivemos alta e, desde então, nada mais nos afligiu. Quando fomos à consulta, foi-nos dito que a decisão de antibiótico terá sido precipitada: não havia nem cheiro, nem pus, nem febre. Mas que uma vez a decisão tomada, teria que ser levada até ao final do tratamento.

Minha pequenina, gostava que o teu início de vida tivesse sido diferente. Tudo fiz para poder estar contigo junto a mim, ai de quem me viesse dizer para ir descansar! Hoje olho para ti, quase 2 anos depois, e sei que estás bem. Que és feliz. Que foste tu que escolheste esta nossa família, mesmo que por vezes pense que te vieste meter aqui no meio de três malucos um bocado teimosos. Sou eternamente grata por te ter na minha vida. Ser tua mãe é fácil, tu és luz e alegria.

Beatriz, rima com feliz. Que o sejas sempre, meu amor. <3

bia

assinatura blogue cristina cardigo

 

 

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