Relato de Parto da Vera

A coisa mais comprida do mundo

A história do meu parto começa na minha primeira gravidez.

Sempre desejei um parto natural, respeitador, humanizado. E apesar de me ter informado bastante e até ter chegado a elaborar um plano de parto, uma ameaça de parto prematuro às 33 semanas veio a abalar a minha confiança e fez-me entregar-me totalmente à médica Obstetra que me seguia no privado (afinal eu mesma a escolhera como tal, porque não deveria confiar?). Isso levou a que o meu parto natural no termo, tão desejado, se transformasse num parto provocado às 36 semanas, sem grande justificação médica para tal. Isso aliado a uma série de intervenções decorrentes de procedimentos “rotineiros” do hospital para onde fui acabou por me fazer passar por um trabalho de parto onde não vi nenhum dos meus desejos respeitado (ainda que não sentisse que me faltasse ao respeito propriamente) e que terminou numa cesariana de urgência em que fui submetida a anestesia geral.

Seria uma história longa de se contar mas estes são os pormenores principais que me levaram a tomar algumas decisões na minha segunda gravidez: não quis ser acompanhada por mais do que a minha médica de família; desejava poder ser acompanhada por uma doula; faria o máximo por poder ter o parto natural que ainda desejava; pretendia ir para um local com práticas humanizadas.

A gravidez não poderia ter sido mais diferente da primeira: em termos físicos foi muito mais extenuante mas em termos psicológicos não podia estar mais tranquila com as minhas escolhas e desejos.

Perto do terceiro trimestre contactei a Cristina Cardigo para saber de que forma deveria eu escolher uma Doula. Penso que de alguma forma estaria já a sentir que ela deveria ser a pessoa que eu iria querer a acompanhar-me e ao meu marido na fase final da gravidez e a ajudar-nos a sentir-nos preparados para o parto.

As sessões que tivemos com ela foram focadas precisamente no trabalho de parto, os medos, expetativas, métodos de alívio da dor… À medida que íamos tendo estes momentos com a Cristina, aumentava a nossa convicção e a nossa confiança em nós mesmos para conduzir todo o processo com a maior das tranquilidades.

No geral os pontos centrais do nosso plano de parto passavam por fazer a maioria do Trabalho de Parto no conforto da nossa casa, chamando a Cristina para estar presente e apoiar durante esse período até que chegasse a hora de ir para o hospital, para o qual ela nos ajudaria a perceber qual seria o momento ideal. Escolhemos o Hospital Garcia de Orta devido às suas práticas humanizadas no bloco de partos e tínhamos como segunda opção o Hospital São Francisco Xavier, que fica a 5 minutos da nossa casa, caso fosse necessário chegar mais rapidamente.

A partir das 35/36 semanas comecei a ter bastantes mais contrações diariamente. O bebé já estava encaixado e a cada dia ia aprendendo a conviver e aceitar as pequenas dores que iam surgindo ou aumentando. Tinha sempre presente de que elas eram o sinal de se estar a aproximar a hora em que iria conhecer, da forma como desejava, o meu bebé, o Miguel.

Tornou-se um hábito ir falando com a Cristina ao longo do dia por mensagens, apenas para dizer como me sentia ou para tirar alguma dúvida sobre alguma situação. Foi nesta fase que cada vez mais me fez sentido ter escolhido ter o acompanhamento de uma doula, pela tranquilidade que sentia em poder esclarecer dúvidas e perceber que as coisas que ia sentindo eram ou não normais, e acima de tudo em ajudar-me a manter-me focada e confiante nas minhas escolhas. A partir das 38 semanas era ela que diariamente me mandava mensagens a perguntar logo pela manhã como eu tinha passado a noite e como me sentia. A verdade era que me sentia muito especial de cada vez que recebia um contacto dela e pensava sempre o quão importante seria que todas as grávidas pudessem ser assim acompanhadas!

A data prevista do parto (11 de maio) ia-se aproximando. Eu sentia claramente que estava na fase de prodromos já há algum tempo pois todos os dias o meu corpo entrava num ciclo de contrações regulares ao final da tarde, que duravam umas horas e depois acabavam por acalmar. Voltei a ter ataques de “nesting” e era assolada por diversas vezes por uma sensação de que precisava de aproveitar mais tempo com a minha filha, como se tivesse a despedir-me dela como filha única.

E também várias vezes me lembrava das palavras da Cristina, sobre fazer coisas que me dessem prazer para que ficasse inundada por ocitocina. Isso levou-me até a marcar uma saída com amigos, para ir ver um concerto de tributo a Bon Jovi num bar – fazia mais sentido para mim divertir-me a dançar e cantar do que propriamente me por a fazer grandes caminhadas e subir escadas como normalmente os médicos sugerem. E la fui para o concerto onde (ao ritmo que consegui) me diverti imenso!
O dia seguinte era o domingo de dia da mãe e iria estar também como gosto, a almoçar em família.

Mas quis o Miguel que eu tivesse a maior das prendas no dia da mãe!!!

Eram 6h certinhas quando me virei na cama e senti as roupa a ficar molhada. Não chegou a passar para a cama mas achei que não era só corrimento e realmente tinha já saído um bocado de rolhão, o penso estava um pouco rosado e as cuecas molhadas. Fiquei na dúvida, mas logo a seguir já na sanita me deu uma volta à barriga – outro sinal frequente do trabalho de parto. Nesta altura o meu cérebro lançou um “red alert”, fiquei nervosa e tive a certeza que era naquele dia que ele ia nascer. Mas ainda assim fiquei um bocado ainda a tentar perceber se realmente saía ou não mais líquido; no fundo estava a gerir expetativas, pois ao mesmo tempo que desejava muito que estivesse a acontecer, também não queria estar a entusiasmar-me com um falso alarme.

Entretanto liguei à Cristina e contei-lhe o que se estava a passar. Concordámos que ainda podia tentar descansar um pouco já que eu não sentia contrações e assim íamos falando e avaliando. Deitei-me por mais meia hora.

Pelas 6h40 senti começarem as contrações então fiquei um pouco na cama a contá-las – estavam ritmadas mas não muito certas, umas a 8 minutos outras a 3 outras a 5… e praticamente sem dor. Decido então ir para o banho mas a diarreia ainda me prende mais uns minutos. Quando entrei no duche liguei música para me distrair e ir cantando, e apesar de não conseguir estar sempre a contar os intervalos das contrações fui percebendo que elas estavam cada vez mais próximas pois tinha mais do que uma em cada música. Falei novamente com a Cristina – seria normal estar no duche e as contrações estarem menos espaçadas? Ela confirma que é realmente sinal de parto ativo, (caso não fosse, com o duche relaxava e abrandavam) e nesse momento pedi-lhe para ir ter comigo.

Apesar de estar com poucas dores estava com a sensação de estar a avançar depressa por isso achei que era o momento de também contactar a minha mãe, que tinha ficado com a Mariana durante a noite, para a deixar ao corrente da situação. Foi no decorrer dessa chamada que comecei a sentir dificuldade em falar durante as contrações. Isso levou-me a que sair do duche logo se seguida e pedir ao Nuno para por um vestido a postos e para ele comer… continuei a deambular pela casa e as contrações a aumentar de intensidade. Entrei rapidamente na fase em que quis desligar as luzes todas, falava cada vez menos, tinha vontade de vocalizar e me dobrar para a frente (sempre de pé)… os barulhos incomodavam, pedi ao Nuno que desligaste tudo o que era máquinas e mudasse a música pois a minha playlist alegre já me estava a incomodar. Ele perguntou o que eu queria ouvir e sei que respondi ” qualquer coisa que diga yoga, relaxamento, algo assim” (bem… na verdade não foram bem estas as palavras que eu usei, penso que dá para imaginar o tipo de termos que poderei ter usado nestas indicações).

Deviam ser umas 8h30 quando a Cristina chegou. Eu estava às escuras no hall da casa e ela nem me dirigiu a palavra ao entrar. Quando a contração seguinte surgiu ela abriu os braços e eu imediatamente me atirei para ela e a abracei para poder descansar o corpo enquanto a contração vinha. Ela cheirava a alfazema e isso soube-me bem e acalmou-me muito. Estivemos nisto durante mais três ou quatro contrações até que eu me senti a ficar com as pernas cansadas e fui para o quarto para me tentar deitar, mas as dores aumentaram logo de tal forma que nem sequer cheguei a tocar o corpo todo no colchão! Fiquei ali junto da cama nas contrações seguintes e foi aí que ela, que apenas devia estar em nossa casa há uns 15 ou 20 minutos, perguntou se tínhamos tudo pronto para sair de casa.

Neste momento caiu-me a ficha – estava mesmo próximo. Eu tinha a noção de que estava tudo a ir rápido mas ao mesmo tempo, na minha tal tendência de gerir as expetativas, não queria acreditar nisso com receio de depois ter ainda muitas horas pela frente. Mas ela disse-me que sim, estava a ir mesmo muito rápido e as contrações muito juntas. A minha reação imediata foi esquecer o Garcia de Orta e disse que queria ir para o São Francisco Xavier e pedi- lhe que me acompanhasse até lá.

A seguir um novo choque de realidade me vem à cabeça e digo “oh meu Deus, como é que eu vou conseguir ir para o carro?!?!!”

A Cristina tranquilizou-me – “Vamos quando achares que consegues. Se achares que não consegues o Nuno chama o INEM. Eu não sou médica, o Nuno não é médico. Se o Miguel tiver que nascer em casa o melhor para vocês é estarmos com um profissional”. Mas nascer em casa não estava de todo nos nossos planos! Levantei-me depois da contração seguinte e disse “Vamos embora!”

Mas não consegui passar do hall. As contrações repetiam-se e eu começava com vontade de fazer força o que levou logo a Cristina a pedir ao Nuno para ligar para o INEM. Neste momento eu cheguei a sentir algum medo porque achava que ele ia nascer a qualquer momento e, mais uma vez, aquele não era o nosso plano! Mas eles foram super rápidos e 5 minutos depois já estava a o a ouvir as sirenes da ambulância. Aí fiquei mais tranquila e permiti que o meu corpo pudesse continuar a trabalhar. E foi tudo muito primitivo: o meu corpo adoptava as posições e fazia as forças que precisava sem que eu pensasse. Ouvia ao fundo que estava a gritar enquanto já fazia força (acho que é a isto que chamam entrar na partolandia) mas ao mesmo tempo parecia que não era eu que estava lá.

De repente entra o INEM em casa e começam a atacar o meu “eu” animal – ligaram as luzes, começaram a dizer “pare de fazer força que o bebé tem é de nascer no hospital.. vamos ter de a levar já” enquanto eu dizia que não ia dar e me tentavam sentar numa cadeira de rodas. Soltei a fera que há em mim quando a tripulante da VMER me começou a apoiar pelo ombro para eu me sentar (o Nuno diz que eu parecia um bicho a falar entre dentes), pois como me deu a sensação que me estavam a forçar, quase gritei guturalmente: “VOCÊS NÃO ME EMPURREM!!!!” E acho que ficaram com medo de mim! A partir daí outro colega passou a falar comigo, muito mais tranquilamente, o que me levou a colaborar.

Saímos de casa com mais duas ou três contrações pelo caminho até à ambulância. E continuavam sempre a dizer “não pode fazer força “. Perdoem-me os mais susceptíveis mas nesta altura já só me apetecia era que eles enfiassem o “não pode fazer força” onde o sol não bate. Só quem já passou por um parto natural/normal sem analgesia sabe como é praticamente impossível a uma mulher naquele momento conseguir não fazer força! Lá entramos na ambulância onde me deitaram de lado na maca… e bastaram mais duas contrações!

A ambulancia já tinha começado a andar quando senti o anel de fogo a chegar – a cabeça do Miguel estava já a coroar e comecei a dizer “Não dá, não dá, não dá!” e eles finalmente perceberam que não íamos chegar ao hospital! Pararam a ambulância e no mesmo momento a cabeça saiu num puxo! Passado uns segundos com mais uma contração sai o resto corpo praticamente sem dor! O Miguel começou logo a chorar, ainda antes do outro médico da VMER entrar na ambulância… Pouco depois já tinha o Miguel nos meus braços! A única coisa em que pensava naquele momento era que queria chegar rápido ao hospital para poder estar com o meu marido que entretanto teve de seguir no nosso carro e chegou lá antes da ambulância. Tudo isto aconteceu até às 9h45, portanto estive apenas três horas em trabalho de parto!

Fomos recebidos no São Francisco Xavier por uma equipa fantástica que fez uma grande festa à nossa chegada (não é todos os dias que chega um bebé nascido pelo caminho) e todos foram magníficos na forma como nos trataram em tudo o que se seguiu – que também já não era muita coisa, diga-se!

Eu vinha já a fazer pele com pele e assim continuei depois de uma rápida avaliação ao Miguel, qie nunca foi levado do meu lado. Quando falaram que iam administrar a vitamina K pedi que o fizessem em cima de mim para ele poder ficar mais calmo e já com a mama, que agarrou com facilidade e de onde não saiu mais na hora seguinte. Enquanto isso eu era também observada. A placenta saiu inteira em mais uma contração e acabei por ter de levar alguns pontos internos. Mas segundo a enfermeira isso só aconteceu por ter parido deitada na ambulância pois caso tivesse sido de pé como estive o tempo todo antes, provavelmente nem chegava a rasgar. A meio desta fase ainda brinquei com a equipe e perguntei se elas tinham gostado de ler o meu plano de parto!

Foi uma grande história com final feliz e que não poderia ter sido de outra forma, pois foi mesmo tudo muito rápido – foi a natureza a levar o seu curso! Nisto tudo foram indispensáveis o Nuno, que esteve sempre imperturbável e super tranquilo o tempo todo e que ajudou em tudo, absolutamente tudo o que eu lhe pedi (ou no que eu nem precisei de pedir): aliviou-me a dor, tomou as rédeas da situação, deixou-me estar naquele momento da forma que desejei, imperturbável e respeitada… E a Cristina, a minha Doula, que sempre me escutou atentamente, me respeitou e teve sempre palavras de encorajamento ao meu ouvido. Mas que também foi imprescindível para nos fazer agir a tempo de estarmos acompanhados pela VMER, pois caso ela não estivesse presente eu sinto que teria levado mais tempo a decidir ir para o hospital e aí teria um bebé em casa e sem qualquer suporte médico!

Foi uma experiência mirabolante mas ao mesmo tempo magnífica. Tive um parto natural!!! Foi aquilo que eu sempre quis, ainda que não tenha sido como o plano inicial… Mas essa parte já vem do karma.

À terceira é de vez!!!

vera

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