40 semanas – Ordem de despejo

Tic tac tic tac tic tac

O relógio bate e o prazo de validade terminou. Chegou a hora.

O bebé está no quentinho e não quer largar a mãe.

Ora, não pode ser, está gordinho e tem de sair. Ou está magrinho e tem tempo para crescer cá fora.

Tic tac tic tac tic tac

A barriga já pesa. As pernas caminham devagar. A bexiga aperta. O estômago arde. A respiração está curta.

Imaginas a ansiedade para te conhecer, bebé?

Será que vais ficar aqui dentro para sempre? Será que o meu corpo funciona? Será que vou ser capaz?

Quero conhecer-te bebé. Um minuto parece uma eternidade. Quando vens bebé?

38 semanas. 40 semanas. 41 semanas?

Fomos aos hospital. Ordem de despejo.

Hesitei mas não questionei. A bata branca saberá mais do que eu.

Não quero que nada de mal te aconteça, bebé. Dizem que sou teimosa, inconsciente e egoísta. Que tenho que te deixar ir. Que está na hora.

Tic tac tic tac tic tac

Entrego o meu poder e confio que sabem o que é melhor para ti.

Mas será mesmo assim?

A minha gravidez é de baixo risco. A minha tensão está bem. Continuas a receber os meus nutrientes. Tu mexes-te e eu sinto-te e sinto a minha intuição. Está tudo bem.

Estou cansada. Tenho medo. É um desafio acreditar no meu corpo.

Tudo tem o momento certo.

Será?

Faço as contas. Conheço os meus ciclos e a ovulação não bate certo com a data da ecografia. Mas ninguém me ouve.

Sei que darás o sinal quando estiveres pronto. Os teus pulmões estão a amadurecer para poderem respirar cá fora. Colher é diferente de Acolher.

O meu corpo é sábio. Acolho a tua vontade e confio nas minhas hormonas que, aos poucos, me irão conduzir até ti. O trabalho de parto começa, lentamente. As dores apertam. Após cada contracção, um momento para respirar. Expando o meu ser até ti. A dor é o nosso caminho para nos encontrarmos. Respiro. Inspiro, expiro. Olho para dentro de mim e sei que estamos juntos, eu aqui para ti, tu mostrando-me o caminho. Confio em ti. Confio em mim.

Numa indução não é bem assim. Entregam-me um comprimido. Injectam medicação no soro. Aplicam um gel. Fazem um toque maldoso, descolando as membranas. Está na hora de romper o saco.

Estou deitada, não me deixam movimentar. A dor aperta, não consigo descansar. Tenho medo, não me tratam com respeito. O corpo não avança. Será que a culpa é minha?

Peço a epidural. Deixo de sentir quando tenho que fazer força. Cortam a minha vagina, empurram a minha barriga, trazem os fórceps para te tirarem. Vamos para uma cesariana de urgência, porque sofres demais com as contracções da indução e não há tempo a perder.

Que pesadelo, bebé! Escapámos a tudo isto, meu amor.

Sabes qual foi o meu segredo? Enchi o peito de coragem e perguntei:

– Qual é o motivo da indução? O bebé está em sofrimento? A gravidez apresenta riscos?

– Está muito grande/pequeno? Qual é a margem de erro das ecografias? É impossível um parto natural de um bebé com 4 kgs? Qual é a evidência de que a placenta já não está a nutrir o bebé, no caso de baixo peso? Como está o líquido amniótico? Como está a circulação de sangue no cordão?

– Qual é o risco de esperar? Como podemos acompanhar se o bebé está bem?

– Em caso da indução ser mesmo necessária, como será feita? O ambiente em que estarei será protegido? Respeitam a nossa privacidade?

Sabes bebé, todos temos medo. Os profissionais de saúde, por vezes, acham que o parto é algo muito arriscado. Então, criam normas e protocolos para se protegerem. Quando perguntamos algo (porque queremos mesmo compreender o que se passa) e nos respondem encrispados “é norma do hospital” ou “porque eu não deixo chegar as minhas grávidas” talvez seja bom reflectir.

Nós não somos de ninguém. E o poder da escolha é todo nosso. Que as parteiras e as médicas e médicos sejam o nosso melhor auxílio para decidir em consciência.

Porque, no fundo, todos queremos que estejas bem, bebé.

É precisamente por querer o melhor para ti que eu, em consciência, decido esperar.

E sabes o que faço nestes últimos dias, quando a ansiedade aperta?

Decido ser feliz.

Não subo nem desço escadas, nem vou aspirar a casa. Mas caminho, baloiço na bola de pilates, porque sei que isto te ajuda a encaixar e seguir a tua jornada. Converso com a minha doula, que me ajuda a desenvolver a minha confiança e a reduzir a adrenalina da ansiedade e do medo. Abraço o teu pai.

Danço, se me apetecer dançar. Durmo se me apetecer dormir. Preparo um bolo, como uma refeição que me dá prazer. Faço amor comigo mesma e com o teu pai também. Sei que o prazer que eu sinto tu sentes também, e isso é algo verdadeiramente maravilhoso. Sei que quando estiveres pronto, os meus orgasmos irão ajudar o trabalho de parto a iniciar. Estimulo os mamilos. A ejaculação masculina também ajuda o colo a amolecer (e assim já não precisamos do tal gel de prostanglandinas).

Preparo um chá. Dizem que as folhas de framboeseiro ajudam a nutrir o útero.

Está tudo pronto, bebé.

Escrevo para ti. Desenho, pinto. Converso muito e levo-te a ver o mundo, ainda na minha barriga.

Logo, logo estarás aqui, no meu colo, a beber do meu leite, a tua pele a tocar na minha pele.

Olhar-te nos olhos e ter a certeza que irei amar-te para sempre.

Estou pronta, bebé. Podes vir. <3

assinatura blogue cristina cardigo

2 thoughts on “40 semanas – Ordem de despejo

  1. Ana diz:

    Somos tão formatadas para achar que os médicos e enfermeiras é que sabem…perdeu-se o conhecimento do processo, do nosso corpo.
    A entrar no 2º trimestre e a começar a pensar “como quero que seja o meu parto” este relato é tão real para mim. Somos hoje mães mais informadas (às vezes até demais), no entanto, em muitos casos não é nada a possibilidade de fazer valer a nossa vontade, o nosso instinto. As doulas deveriam estar no SNS, a acompanhar-nos no centro de saúde desde a nossa 1ª consulta…tudo seria tão fácil e mais justo também. Todas as mulheres poderiam ter uma escolha. Hoje não têm….eu não sei se vou poder ter…
    Obrigado por este espaço, obrigado pelos testemunhos, obrigado pelo conhecimento e obrigado pela abertura da minha consciência.

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    • Cristina Cardigo diz:

      Obrigada eu pela partilha, Ana. Eu acredito profundamente que os profissionais de saúde dão o melhor que sabem, com os recursos que têm. É necessária uma viragem na forma como olhamos para o parto, para as mulheres… como um acontecimento fisiológico, que requer tempo, privacidade, protecção. Que requer profissionais que estejam presentes de corpo e alma. Que saiba lidar com a dor, com as vocalizações da mulher, que estejam preparados para agir apenas quando necessário e não como rotina. Essa viragem começa em nós, mulheres, que falamos sobre o tema, que questionamos. Eu não vejo o parto como um momento de luta com os profissionais de saúde, durante o parto é o momento de tranquilidade e trabalho em equipa, com foco na mulher. Mas durante a gravidez, é importante que a mulher esteja informada, atenta, empoderada. A realidade muda lentamente, mas está a mudar. <3

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