Todos os castigos são inúteis

 

Depois de uma entrevista em que disse que os castigos são inúteis e instigou os pais a quebrar todas as regras “aburdas e falsas”, surgiu em Portugal uma polémica entre quem partilha as suas ideias e quem defende que a disciplina continua essencial no processo de educar as crianças. Esta é uma discussão infindável?

Mas quando disse eu que a disciplina não faz falta? Veja-se a definição da palavra no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que consultei no início de junho. ‘Disciplina: 1. Conjunto de leis ou ordens que regem certas coletividades; 2. Boa ordem e respeito; 3. Submissão, obediência; 4. Instrução e educação; 5. Ensino; 6. Ação dirigente de um mestre; 7. Estudo de um ramo do saber humano; 8. Autoridade; 9. Obediência à autoridade.

Concordo com

o primeiro conceito: a família deve ter regras, como não deixar as crianças chorar, não lhes bater, gritar ou humilhar, dar-lhes atenção e tempo… E também estou de acordo com o segundo: há que respeitar as crianças. E, já agora, com o terceiro, as crianças, de forma natural, estão submetidas e obedecem aos pais. Elas dependem de nós e é precisamente por isso que a nossa responsabilidade é tão grande.
No que respeita ao quarto e quinto, continuo a concordar com a definição em português da palavra “disciplina”: há que instruir, educar e ensinar as crianças. Entre muitas outras coisas, há que lhes ensinar a forma correta de tratar as pessoas. Eu não grito nem bato nas pessoas. Eu assisto os meus familiares e amigos quando eles me pedem ajuda ou necessitam de mim. E é isso que ensinei aos meus filhos.

Pontos seis e sete: totalmente de acordo. Não sou professor, mas parece-me muito bem que as crianças vão à escola e tenham quem as ensine, bem como é positivo estudar algum ramo ou ramos do saber humano.

Quanto ao oitavo sentido, o da autoridade. Nós, pais, temos autoridade. Somos nós que decidimos onde a família vive, que comida ou roupa compramos, que escola as crianças frequentam… As crianças passam a vida a obedecer a ordens. Na verdade, estou um pouco cansado de ver algumas pessoas a questionar a autoridade dos pais: “Você não tem o direito de dar colo ao seu filho, de o confortar quando chora, de o amamentar vários anos, de dormirem todos juntos…” Sim, temos o direito de fazer essas coisas, porque não faz mal e ninguém as pode proibir.

Por fim, totalmente de acordo com o ponto 9. Há coisas que prejudicam e causam dano às crianças e por isso as autoridades podem e devem proibi-las. E todos os pais devem obedecer a essa proibição. Em Espanha, a lei proíbe bater nas crianças. E em Portugal?

Em conclusão, considero-me um pai muito disciplinado e disciplinador. Onde está aqui a discussão?

Por que razão parece tão difícil para alguns pais despirem a “farda” do controlo?

Concordo com a expressão “alguns pais”, certamente que nem todos. Suponho que o controlo transmite-se de geração em geração. Como filhos, amamos tanto os nossos próprios pais, obedecemos-lhes tanto, que temos tendência a tratar as nossas crianças do mesmo modo. Neste ponto, aconselho a leitura da obra “The psychology of parental control: How Well-Meant Parenting Backfires”, escrita por Wendy S. Grolnick. Creio que é altamente esclarecedora.

E porque é que o tema “castigos” é tão controverso?

É controverso? Existem pessoas que defendem que os maridos castiguem as mulheres, ou vice-versa? Há defensores que os chefes castiguem os seus funcionários? Há apoiantes de punições a estudantes por parte dos professores universitários ou que os empregados de mesa castiguem os clientes? Diria que há um consenso bastante geral em que não podemos sair por aí a punir quem faz coisas de que não gostamos. Ah, estamos a falar das crianças? Claro, quanto às crianças há que castigá-las, são levadas do diabo e passam os dias a fazer coisas muito, muito más… Nota-se que estou a ser muito sarcástico? Vamos ver se alguém toma estas palavras a sério.”

Carlos González estará em Cascais, 28/10, para falar sobre Autoridade e Limites. Inscrições em mimami.org 
(in entrevista à Pais e Filhos, 2014)
Humanos_cartaz_programa 28-10

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