Dorme como um bebé

2 anos a acordar várias vezes por noite para mamar. Assim foi o meu filho Gui, como vos contei neste texto. Sesta? Lutava contra ela ferozmente. Com 2 anos foi para a creche e, durante o primeiro mês, adormeciam-no ao colo. Depois, aos poucos, vendo os outros, aprendeu que era seguro adormecer sozinho. Em casa, tarefa impossível. Depois do almoço, era habitual darmos uma volta de carro para que adormecesse. Depois, teriamos que o retirar com cuidado e deitá-lo na cama. O sono sempre foi algo sensível na nossa família. Um autêntico filme.

Hoje tem quase 5 anos e adormece sozinho, tanto à hora da sesta na escola como em casa. De noite, também. Gosta da nossa companhia para adormecer e nós igualmente. Já é comum dormir uma noite seguida sem nos chamar. Por vezes tem pesadelos ou dores de crescimento. Tem um colchão ao lado da sua cama que por vezes está ocupado, outras vezes não.

Adormecer à mama, embalar, levá-lo a sair de carro, foram as estratégias que encontrámos para manter a nossa sanidade mental. Houve uma fase em que ele até o colo do pai recusava, biberão idem aspas, só a mama o acalmava. Então, confesso que sempre escolhi a solução mais fácil. A diferença é que no início sentia culpa e receio de estar a prejudicá-lo, depois aceitei que era uma fase e que tudo iria melhorar.

Para nós, estava totalmente fora de questão deixá-lo chorar, por todas as consequências que isso acarreta. A psicóloga Laura Sanches fala sobre este tema neste artigo e neste também. A Constança Cordeiro Ferreira, terapeuta de bebés, é também uma referência na área do sono dos bebés. Para quem está com dificuldades, aconselho vivamente a leitura do seu o livro “Os bebés também querem dormir” ou a marcação de uma consulta no Centro do Bebé. (E, já agora, sabiam que tanto a Constança como a Laura vão ser oradoras na nossa conferência Humanos, a 28/10, em Cascais? Todos os detalhes aqui.)

A Bia, agora com 1 ano, apresenta algumas semelhanças. Sempre adormeceu à mama, por vezes embalada na bola de pilates, outras vezes em modo babywearing. Durante muitos meses permaneceu ao colo, para que fizesse sonos mais longos. Quanto mais um bebé dormir durante o dia, melhor dorme durante a noite. Manter um bebé acordado só o vai deixar mais irritado e isso reflete-se no sono nocturno. Então, a Bia sempre foi uma bebé tranquila: desde que tivesse mama e colo. Sozinha, num berço ou num carrinho, acordava e ponto. Nós aceitamos que é algo comum em muitos bebés e escolhemos a estratégia que promove um apego seguro, com mais tranquilidade para toda a família.

Durante a noite era possível pousá-la na cama desde que estivesse coladinha a mim, nariz encostado na minha axila. Com o passar do tempo, começou a estar mais afastada de mim, no seu berço em side-car e só vem quando quer mamar. Recentemente, começou também a ficar pousada na cama durante as sestas diurnas. Com tranquilidade e confiança, sei que um dia irá adormecer sozinha e permanecer num sono tranquilo, sem companhia, durante algumas horas. Só não sei quando será. E também sei que um dia irá querer encontrar outra companhia, fora da família, para a aconchegar durante a noite.

Por agora, sentir a presença da mãe através do seu calor, cheiro e movimento é algo que a acalma naturalmente. A cama compartilhada é uma das estratégias que muitas famílias encontram para uma dinâmica de sono mais tranquilo. O importante é que o façam sempre em segurança. A mãe que amamenta deve estar entre o pai e o bebé, não deve haver risco de queda (cama protegida), não deve haver risco de sufocação (retirar almofadas e peluches, o bebé não deve estar tapado com mantas ou edredões), os pais não podem ser fumadores, consumidores de droga, álcool, medicação ou substâncias que alterem o sono. Muito importante também prevenir o risco de sobre-aquecimento. Estas indicações são para bebés de termo saudáveis.

Está demonstrado que a cama compartilhada contribui para que os bebés sejam amamentados durante mais tempo. A UNICEF tem um folheto bastante útil que recomendo a todos os pais, para que saibam como fazê-lo em segurança. Tem também uma colectânea de estudos sobre o tema. Deixo-vos, também,  esta apresentação muito interessante da Hellen Ball (Infant Sleep Information Source), em que é abordada a questão do Síndroma da Morte Súbita do Lactente (SIDS). A Hellen esteve em Portugal há cerca de 1 ano no Congresso Nacional do Bebé. E, não podia faltar, informação sobre o Mother-baby behavioral sleep Laboratory, do James McKenna (que também esteve em Portugal, no ano passado, na CIAM – Academy of Breastfeeding Medicine).

Muita desta informação destina-se a quem desejar aprofundar o tema, nomeadamente profissionais que acompanhem famílias. É importante estar atualizado e deixar de lado mitos e crenças. A sociedade ocidental vê os bebés como seres dependentes e quer torná-los independentes o quanto antes. Já os japoneses, vêem os bebés como independentes e querem torná-los interdependentes da família (no Japão, a cama partilhada é a norma). Depois, há sempre receios relacionados com a intimidade do casal, sobretudo quando se pensa que a única ocasião para haver sexo é na cama, de noite (os pais têm um bebé, hello?). Escreverei sobre isso em breve.

Com os pais, costumo partilhar a nossa experiência, validar e normalizar a cama partilhada e, sobretudo, aconselhar a fazê-lo em segurança. Porque o que acontece muitas vezes é que, na tentativa de fazer o socialmente correcto (bebé a dormir sozinho no berço), os pais acabam por colocar o bebé a dormir com eles de forma não segura, precipitando acidentes. Um exemplo disso é adormecerem com um bebé num sofá ou numa cadeira reclinada, o que é perigoso e totalmente desaconselhado.

De resto, o instinto está certo. Um bebé que procura o contacto humano durante a noite está a fazê-lo por questões de sobrevivência e de afeto. Basta pensar que nós, adultos, também gostamos de dormir com companhia.

A pediatra dos nossos filhos falou-nos na importância de aprenderem a dormir por eles próprios. Tal como me escreveu posteriormente no Facebook:

O mais importante é eles crescerem felizes e os pais estarem confortáveis com as noites mal dormidas! O mais importante é viver os momentos únicos da infância e gerarem-se sentimentos nutritivos no presente e gratificantes memórias! Depois todas as versões do sono poderão ser válidas, desde que não sejam disfuncionais para ninguém!

E nós concordamos plenamente. Apenas não deixamos ninguém chorar para que durma. Com o primeiro filho houve muita preocupação e culpa. Agora, reconhecemos que é algo comum e entoamos um dos mantras da parentalidade: Vai passar.

Respeitamos o seu ritmo. Com bom-senso. Confiamos que um dia irão dormir. E nós também. <3

assinatura blogue cristina cardigo

One thought on “Dorme como um bebé

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