40 semanas (e agora?)

Assim estava eu há 1 ano. Grande, ENORME. 

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Todos me diziam isto. Que matulona que ia ser! Até o obstetra olhava para a barriga e comentava que, a olho nú, era mais que um percentil 90. E eu, que já me arrastava, ia contando os dias. O Gui tinha chegado às 38 semanas, com uma bolsa rota sem contrações, num parto altamente intervencionado, com violência obstétrica à mistura. A Bia começou a dar sinais às 36 semanas que se foram intensificando. Foram 4 semanas de muitos sinais, numa fase de pródromos ou falso trabalho de parto. As contrações apareciam, pareciam ritmadas, e depois puff! tudo parava. Houve muitos momentos em que pensei que o meu corpo não estava a ser capaz. Na verdade, era o oposto. O meu corpo estava a preparar-se para o grande momento. Eu só tinha que confiar: na Bia, em mim. Confiar que tudo iria acontecer no tempo certo.

Claro que no pico do verão, com uma criança de 3 anos em casa, a escola a fechar para férias, o corpo a rebentar pelas costuras… nem sempre é fácil acreditarmos que está quase a chegar o momento. Mas vale a pena esperar!

De uma forma muito breve e clara, eu sabia o que não queria:

  • Toques vaginais: Não são indicativos de nada no que diz respeito à progressºao do trabalho de parto. O colo do útero pode estar “verde” e o trabalho de parto começar de forma espontânea e muito rápida. Ou pode estar maduro e ainda demorar uma eternidade a avançar. Como em tudo na vida, é uma questão de expectativas. E eu não queria aumentar a minha ansiedade. Para além disso, por muita confiança que tivesse nos médicos, eu nunca saberia se eles não fariam um toque maldoso/caridoso como muitas vezes se faz por aí, para acelerar o início do trabalho de parto, através do descolamento das membranas. Fica a informação que os toques não são necessários e qualquer mulher pode recusar que o façam.

 

  • Indução artificial: Nem mecânica, muito menos com medicação. Uma indução artificial do trabalho de parto representa contrações muito mais fortes, o que se pode traduzir em mais sofrimento: para o bebé e para a mãe. Maior sofrimento para a mãe leva a que seja pedida uma epidural. A epidural pode fazer com que se perca a sensibilidade nas pernas e não se saiba como e quando fazer força. O bebé não consegue sair. O profissional de saúde recorre à episiotomia (corte da vagina), fórceps ou ventosa, para que o bebé saia. Ao mesmo tempo, há ainda profissionais que recorrem à manobra de Kristeller: pressão na barriga da grávida, de forma a facilitar a saída do bebé. Esta manobra é totalmente desaconselhada pela Organização Mundial de Saúde. É violência obstétrica. Depois, voltando à epidural: muitos bebés têm dificuldades com a amamentação nos dias seguintes ao parto dado que esta analgesia pode provocar efeitos secundários como sonolência. Além disso, o uso de fórceps ou ventosa pode também provocar danos (muitas vezes não visíveis) que provocam dores e desconforto durante a amamentação, fazendo com que os bebés chorem de forma inconsolável e os pais não saibam o que se passa (até que chega alguém que acha que é fome e avança com um biberão de leite artificial). Então, para evitar a cascada de intervenções era fundamental evitar a indução. E evitar o soro também, por receio de colocarem extras sem o meu conhecimento/consentimento.

Então, como passei os últimos dias da minha gravidez? Sabemos que o trabalho de parto apenas se inicia espontanemente quando os pulmões do bebé estão preparados. Eu aguardava esse momento com expectativa. Sabemos que para que o trabalho de parto se desenrole de forma harmoniosa, é preciso muita ocitocina a correr nas veias. Então, para a hormona do amor fluir, era preciso apostar no amor… O que fiz para incentivar uma indução natural?

  • Amor. Com o meu tamanho XXL não era muito prático. Mas as noites eram quentes, fora de casa havia música ao vivo…  com a ajuda de almofadas e um companheiro disponível, era muito prazeroso. Os orgasmos ajudam o útero, as prostangladinas do sémen ajudam o colo do útero, o amor a fluir ajuda tudo, até a relaxar e dormir melhor.
  • Não caminhei, não subi escadas, não aspirei a casa. E só aconselho estas tarefas se forem algo que dêem prazer à grávida.
  • Tomei muitos banhos de mar!
  • Aproveitei os últimos momentos de filho único com o Gui. Havia alguma tristeza inconsciente e receio de não conseguir dar-lhe tudo o que ele precisava. Esquecia-me (ou não sabia!) que uma irmã era das maiores dádivas que lhe poderia dar.
  • Dancei, baloicei, usei a bola de pilates para me apoiar
  • A partir das 38 semanas, bebi chá fresco de folhas de framboeseiro com canela e gengibre. Mesmo que nada fizesse, pelo menos refrescava!
  • Ouvi música, da que me fazia correr ocitocina e cantei muito. Escolhi uma playlist com músicas da juventude, com significado para mim, algumas do relacionamento com o pai dos meus filhos, outras do momento do nascimento do Gui e outras especiais para a Bia. A música que marcou, definitivamente, esta fase foi esta.
  • Conversei muito com a minha doula. Em todos os momentos em que a confiança ia abaixo, ela estava lá para me apoiar.

 

O trabalho de parto iniciou-se às 2h e pouco da madrugada. Às 8h da manhã a bebé Bia estava nos meus braços, depois de um parto empoderador. No fundo, fiz o que estava ao meu alcance para relaxar, amar e confiar. A minha bebé merecia que eu esperasse por ela. E eu, mãe, mulher, merecia esperar pelo momento certo. Confiar no meu corpo, saber que ele é sábio, desligar a mente e deixar fluir as emoções. Esse é o maior desafio antes do parto. E não é algo que surge de forma espontanea, mas que pode ser trabalho ao longo da gravidez. Mais do que evitar a violência obstétrica, pode ser realmente empoderador descobrir a força que a mulher tem para parir um filho! <3

assinatura blogue cristina cardigo

 

 

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