O poder de dizer basta!

Uma mulher tem um quintal. Este quintal fica no meio da cidade, rodeado por outras as casas e prédios. Esta mulher tem vizinhos que não gostam do barulho de bebés e crianças e que os mandam calar, mesmo quando tudo o que estão a fazer é brincar, sem grande algazarra.

Esta mulher também tem outros vizinhos, simpáticos, com quem conversa. Conhece quem a rodeia, muitos pelo nome, assim como também a conhecem a ela. E, apesar de morar numa casa térrea com quintal, a mulher sente-se segura.

Até ao dia em que num apartamento com vista para o seu quintal, começam a fazer obras. O barulho não incomoda. Mas o chorrilho de palavrões que jorra começa a aborrecer. Um dia, dois dias, três dias…

“Já chega, sim?” resolve a mulher dizer, quando caiu a última gota no copo da verborreia.

Então, as asneiras viram-se para a mulher. De imediato, ela ficou a saber tudo o que aquele homem lhe faria, com o que faria, em que orifícios entraria e depois saíria. Conheceu um grande homem, com um pénis do comprimento de um tubo digestivo.

“Onde é que ela está? Eu já lhe digo!”

E assim surgiu o medo. O medo de estar na sua própria casa, sozinha ou com os seus filhos. Que haja represálias, que atirem entulho, que saltem para dentro do quintal. Medo, simplesmente, de voltar a sair e ouvir tanta alarvidade.

Esta mulher encheu o peito de ar e ligou para a PSP.

Teria que explicar o sucedido e confiar que os agentes entendessem o seu medo. Eles chegaram, ouviram. Um deles “acredita que nada de mal lhe irá acontecer”. E a mulher explicou que não é necessário haver contacto físico. Que se trataram de ofensas sexuais e que este tipo de ofensas está até legislado (Artigo 170.º – Importunação sexual – Código Penal). Anuiram que, de facto, podia apresentar queixa.

Passados uns 15 minutos, as janelas foram montadas e o silêncio reinava.

Cresci com a crença de que mulher honrada não tem ouvidos. Educarei os meus filhos para que saibam que têm ouvidos para ouvir, boca para gritar, dedos para ligar para a polícia. Coração para sentir e agir de forma a parar o abuso. Venha ele da forma que vier.

Sentir o medo e agir.

Dizer basta! quando somos alvo de abuso.

Basta!

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