Dia dos avós

Os livros de histórias mostram avós de cabelos brancos, rostos suaves, felizes, doces com os netos. Será sempre assim? A romantização dos avós, como aquilo que gostaríamos tanto que fosse.

Tive um avô que me levava a passear, contava histórias, ensinava a fazer magia e a ler o tarot. No natal, fazia o presépio com todos os detalhes, um momento verdadeiramente especial. Tenho outro avô, abusador, manipulador, ganancioso, controlador. Ainda vivo, de quem mantenho distância. Perdoar é aceitar que a violência que fui alvo faz parte do meu caminho. Perdoar não significa conviver com o abusador (ou até abraçá-lo, como sinal de grande abertura e dignidade, como já ouvi por aí). Perdoar significar respeitar a nossa ferida e respeitarmos quem somos com ela.

Tenho uma avó, que gostava de nutrir toda a família, os petiscos eram a sua arte. Assim se sentia amada e querida, pelos pratos que preparava com amor, conhecendo a preferência de cada um dos filhos e de cada um dos netos. Não era uma avó muito presente, estava sempre na cozinha ou a nutrir os netos rapazes. Tenho outra avó, que sempre viveu numa sombra. Havia afeto, mas não o suficiente para não ser cúmplice perante a violência. Uma violência que, certamente, a acompanhava desde a adolescência, quando se casou com 16 anos, e se alastrou a toda a família, de várias formas.

Com a chegada dos meus filhos, a vida trouxe-me 4 avós. Para o meu filho, 5 avós, um deles por carinho. Neste caminho da parentalidade, dou por mim a olhar para repetição de alguns padrões de avós para netos mas também o quebrar de muitos outros. O respeito pela vontade dos pais ao não desautorizar a vontade infinita por doces. O estar presente, de corpo e alma, e não apenas comprar afetos com guloseimas, presentes ou programas de televisão. Uns mais presentes que outros, uns mais positivos que outros, assim é a vida.

Durante algum tempo, lamentei não ter 4 avós como nos contam as histórias dos livros. Hoje vejo que só assim a minha história tem sentido. E quando há alguém que não compreende o afastamento das famílias em relação aos velhos, eu penso… que tipo de relação havia? Que tipo de vínculo e proximidade existia antes dos velhos serem velhos, entre eles e os filhos, os netos, entre o casal?

Por vezes não gostamos do comportamento dos nossos avós ou dos avós dos nossos filhos. Rigidez, rejeição, humilhação, abandono, traição de expectativas. Hoje não telefonei a nenhum dos meus avós. Ao menos a serenidade de sentir que o meu filho esteve acompanhado pelos seus avós. A realidade é complexa. E hoje não consigo terminar de forma positiva.

assinatura blogue cristina cardigo

 

One thought on “Dia dos avós

  1. Ção Julião diz:

    Abraço-te carinhosamente querida Cristina❣
    Aproveito para partilhar a minha experiência com os meus avós😊 Não muito próxima mas positiva sem dúvida.
    Avós maternos Aurélio e Albertina, ele austero e autoritário de quem tínhamos medo mas que fazia o presépio mais lindo que já vi; ela doce, meiga e submissa e nos acarinhou até ao último dos seus dias… tenho saudades dela e sei hoje que sou fruto de um dos seus óvulos e isso explica muita coisa daquilo que sou hoje😶
    Avós paternos (avós do mato porque viviam a 400km numa roça de café perto da Gabela em Angola) avô Julião e avó Virginia🤗 os dois figuras gordinhas, ele tocava gaita de beiços e dizia versos de sua autoria que nos faziam rir a bandeiras despregadas… levava-me na garupa do tractor pelos cafezais e deixava-me rebolar no terreiro sobre os montes de grãos de café que ficavam dias a secar ao sol abrasador… a avó Virgínia cozinhava ovos com chouriço quando chegávamos tarde da noite e sem jantar por 8h de viagem desde Luanda… fazia pipocas com sal e doce de goiaba❣ boas lembranças😍❤ sempre me senti amada por eles❤ Obrigada universo❣

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