Sobre a empatia

Querida pessoa, sou doula e às vezes sou má.

Transformo o mal dos outros no meu mal e sou má para mim própria. Sinto as suas dores, as suas feridas, como se fossem as minhas dores, as minhas feridas.

Choro muitas vezes. De raiva, frustração e dor. A minha dor, como espelho da dor do outro. Aquilo que é fundamental para si é, também, uma das minhas preocupações.

Escolho ter tempo e educação para isso. Sofro, acredite que sofro. Mas é uma escolha minha. Porque, ao sofrer, estou em contacto com as minhas próprias dores, encaro este contacto como uma oportunidade de crescimento. Tenho dias melhores e dias piores. Como você e toda a gente. Tenho dias em que consigo ser mais empática e dias em que consigo ser menos empática.

Morrer, para mim, é normal. As pessoas morrem. Os bebés que ainda não nasceram e o/a velhinho/a de 97 anos que era tão importante para aquela pessoa. Morrem todos os dias, aos milhões. Morrem, morrem, morrem, morrem e eu consigo fazer muito pouco para o evitar. Às vezes até é bom que morram, porque acaba com um sofrimento que é impossível de lidar. Não tenho pena que seja assim. Porque a morte e a vida andam de mãos dadas. A minha pena não serve para nada. Mas o meu lamento servirá para amenizar, nem que seja um pouco, a dor de quem cá ficou a chorar a perda.

Por isso, comecei a quebrar a minha carapaça dura para que aquilo que me atinja me permita sentir a fragilidade da vida e estar disponível para o outro. Para ser mais humana. Também me rio das desgraças dos outros, se isso significar rir-me com eles, não deles. Chamo-lhe amor negro. A empatia é um privilégio na vida humana. É um bónus. Por vezes, dizemos que não temos tempo nem formação para sermos empáticos. Faço o melhor que sei.

Olhando para o que aconteceu, eu diria que bastaria um “Compreendo que queira ficar com a ecografia e lamento que as regras não o permitam. Talvez se tentar fazer um pedido escrito, pode ser que as pessoas que definiram essa regra percebam a importância que tem a imagem.”

Colocar-se no lugar do outro. Não é preciso tempo nem formação.

É preciso deixar bater o nosso coração.

Texto escrito em resposta a um comentário ao texto Sobre a (falta de) empatia.

assinatura blogue cristina cardigo

One thought on “Sobre a empatia

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