Sobre a (falta de) empatia

O meu nome é Cláudia.

Estou grávida de 14 semanas e 2 dias e desde a ecografia das 12 semanas que se levantaram suspeitas sobre uma malformação grave do meu bebé, ou como foi designado pelos profissionais de saúde, uma “anomalia fetal”.

Na semana passada fui encaminhada pela minha obstetra (estou a ser seguida num hospital privado) para o Diagnóstico Pré-Natal (DPN) da MAC – um departamento muito específico e importante que faz o despiste/confirmação das suspeitas levantadas em ecografias anteriores e/ou rastreios combinados – para realizar uma Biópsia das Vilosidades Coriónicas (BVC) – uma recolha de tecido da placenta que segue para análise genética e que nos dá um diagnóstico efectivo das primeiras suspeitas.

Hoje, dirigi-me à MAC para ir levantar os resultados rápidos da biópsia feita. Fui chamada ao Gabinete de Enfermagem onde uma enfermeira, com o papel na mão, me disse que os resultados vinham positivos (positivo é mau sinal, aqui) e que eu “devia fazer um estudo genético antes de uma nova gravidez” e que “uma próxima gravidez seria sempre considerada uma gravidez de risco, com necessidade de exames invasivos mesmo que não houvesse indícios de anomalias” (referia-se a uma nova BVC ou amniocentese).

Em pé, ali em frente à sua secretária, até porque não tinha nenhuma cadeira livre onde me pudesse sentar, estiquei o braço para pegar no papel que ela ia entregar… o papel onde se podia ler a confirmação da trissomia 13 do bebé que carrego na barriga.

Pedi-lhe para ficar também com as imagens da ecografia que tinha feito no dia da BVC, uma vez que o médico, no dia, só me tinha dado o relatório da ecografia, onde já constava um descritivo das “anomalias estruturais do feto”. E foi a pergunta que se seguiu que me deixou sem resposta: “Mas para que é que quer as imagens da ecografia?”

Fiquei literalmente de olhos esbugalhados a olhar para aquela enfermeira sentada atrás de um monitor, lá ao fundo numa secretária que ocupava quase toda a largura da sala… não consegui dizer nada… a pergunta ficou a ressoar dentro de mim: “Para quê? Para quê?!???” “Isso também não é importante.” – disse finalmente.

Não consegui evitar as lágrimas que tentava conter … “Isso não é importante.” – ouvi aquela frase como um eco… senti-me ferida, magoada na minha sensibilidade de mãe que dentro de poucos dias irá perder o filho que carrega consigo, e respondi como me foi possível: que EU é que sabia o que era importante para mim… que para mim a ecografia de um bebé que ia perder era MUITO IMPORTANTE, sim… e as lágrimas, teimosas, continuaram a cair. Fiquei então a saber que, por regra, os pacientes não podem ficar com os seus exames (apenas com os relatórios dos seus exames) mas que podia sempre ir à secretaria da administração preencher um papel a solicitar os ditos exames…

Saí à pressa, lavada em lágrimas, sem ouvir qualquer palavra de conforto pela confirmação de uma alteração genética incompatível com a vida do meu bebé. Saí do gabinete e entrei na casa de banho para poder chorar sozinha, sem necessidade de limpar instantaneamente as lágrimas diante de alguém que se mostrara indiferente ao meu sofrimento.

Tenho consciência de que as enfermeiras do DPN dão más notícias todos os dias. Também faz parte do seu trabalho comunicarem a uma grávida que o seu bebé não irá sobreviver, isto é, que “o feto apresenta um resultado anormal para cromossomia 13″… e talvez por isso mesmo esperasse um mínimo de empatia.

Não estava de todo à espera que uma enfermeira me confortasse fisicamente e me oferecesse o seu ombro para chorar num abraço que não precisa de palavras mas também não esperava um discurso e uma postura de tamanha frieza…

Não quero generalizar, pois até hoje nunca me senti mal-tratada (física ou emocionalmente) por nenhum profissional de saúde mas fico a pensar: Quando é que esta enfermeira vai perceber que as palavras também ferem, deixam feridas que sangram e que demoram a sarar?

Fica o desabafo.


 

Vamos conferenciar?

Humanos_cartaz_programa

Todos os detalhes aqui!

17 thoughts on “Sobre a (falta de) empatia

  1. Débora Tinoco Ribeiro diz:

    Ola Claudia!

    Antes de mais recebe um abraço apertado desta mãe que há mês e meio enterrou o seu bebé incompatível com a vida. Nasceu de 38 semanas e viveu 3 dias…3 dias cheios de vida, 3 dias (e 38 semanas) que foram muito importantes para mim, para o papá e para todos os que tiveram o privilégio de o conhecer.

    Só quero dizer-te que o teu bebé é muito importante. Que a sua vida é muito importante. Que as ecos, as fotos, tudo é muito importante e que, nada nem ninguém por mais insensível que seja pode roubar isso de ti. Tu és mãe e tens um filho. E só tu podes decidir o que queres fazer. O meu bebé não devia ter nascido, diziam alguns, nem podia sobreviver, diziam os estudos, mas asseguro-te que não trocava um segundo da sua vida por nada neste mundo.

    Um grande beijinho e rezarei por ti a Deus Pai, por intercessão do meu filho querido no céu.

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    • Anónimo diz:

      Para a Cláudia um abraço muito apertado de alguém que ja vivenciou esse tipo de situação demasiadas vezes :( …Muita coragem!
      Para a Débora Ribeiro, nem sei como lhe dizer o que senti ao ler o seu depoimento, passei à dias uma situação idêntica, não com um filho meu, mas com um sobrinho que para mim era e continua a ser como um filho! Tive o privilégio de o conhecer e esteve connosco durante 14 dias, dias de fé, de esperança. Quis o destino que não permanecesse cá, mas uma coisa é certa, nos nossos corações ficará eternamente!
      Um beijinho muito grande, para vocês e para todas as mães-coragem deste mundo!

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  2. Paula Barrau diz:

    Querida amiga… Tenho estado para te enviar mensagem todos os dias mas depois nunca o chego a fazer.
    Não tenho palavras para te dizer neste momento mas de uma coisa eu sei… Tens uma filha linda, um marido companheiro e uma força incrível dentro de ti! Um bracinho apertadinho… Daqueles sem palavras mas cheio de amizade e que faz bem à alma! I am here for you… ❤

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  3. Carin pires diz:

    Sente um grande abraço e espero que superes esta altura tão difícil da melhor forma possível.
    Não é falta de empatia, é falta de humanidade.
    Um profissional de saúde materna, por mais que dê más notícias todos os dias, tem
    um impacto devastador na vida de quem as recebe. Se tiveres forças para o fazer, reclama deste tratamento indigno.
    Se este profissional não soube minimizar a tua dor física ou psicológica, ao dar-te uma notícia tão final, tão dramática, tão devastadora, não está de forma alguma apto a continuar a trabalhar nesta área.
    De novo, um grande abraço porque palavras são muito poucas para uma altura destas.

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  4. Francisca van Uden Cachão diz:

    Querida Cláudia,

    também eu tive uma noticia parecida as 12 semanas. Também eu levei com um balde de agua fria terrível dado por alguém que devia saber melhor como ser humana numa situação dessas (no meu caso a medica que me fez a ecografia, que me disse que o meu bebe “tinha um problema, e que não valia a pena estar a perder mais tempo com ele até fazer um diagnóstico”… foi assim que começou o nosso pesadelo, no nosso caso foi uma monossomia X, ou Síndrome de Turner.)
    Foram tempos muito duros, 3 meses de incertezas, duvidas e alguma solidão porque apesar de procurar diariamente na internet casos parecidos, e de ate ter encontrado alguns, temos sempre a sensação de que estamos sozinhas nestas circunstâncias. Pois quero dizer-lhe que não está sozinha! Tenha muita força e faça o que for preciso para si para encarar tudo isto! se quer os exames, exija-os! se se sentiu mal acompanhada, faça queixa! Não se deixe “convencer” a fazer seja o que for que no seu coração não faça sentido. A Cláudia é a mãe deste bebé, ele é seu filho, as decisões são suas.
    Mando-lhe um grande abraço e muito amor! Força e Luz neste momento é tudo o que lhe desejo! <3

    Ps- na altura escrevi um blog, e apesar de nunca o ter publicitado nem "publicado" oficialmente, so o facto de o escrever ajudou-me bastante para mandar cá para fora tudo o que sentia.

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    • Vera diz:

      Boas
      Eu também passei pelo mesmo… mas no meu caso so na autópsia se verificou sindrome de turner. O meu obstetra observou o hidroma na ecografia das 12 semanas mas infelizmente no hospital queriam estudar as anomalias e evoluções… fiz o aborto as 18 semanas e 5 dias. A espera é o pior… a angústia indescritível. Mta força a todas as famílias que passam pelo mesmo

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  5. Maria diz:

    Antes de mais, lamento muito a situaçao e compreendo-a infelizmente tão bem. No ano passado, em julho perdi um bebe às 26s depois de uma restriçao grave de crescimento que ainda nao temos certezas quanto ao motivo. Hoje, acabei de fazer uma amniocentese, exatamente no DPN da MAC, pq com 19s já há também uma restriçao de crescimento e uma suspeita de trissomia 18. Se da outra vez fui sempre acompanhada de profissionais fantasticos na MAC, incluindo no processo de parto e internamento, onde a MAC me surpreendeu imenso pelos cuidados e detalhes logisticos que em mt minimizam o horror que é o processo (nunca em 3 dias que lá estive me cruzei com uma gravida ou um recem nascido, por exemplo). Desta vez, desde médicas que nem me ouvem quando quero esclarecer alguma dúvida, a médicas que me levantam a voz segundos depois de me comunicarem que a probabilidade de sucesso desta gravidez é quase nula, porque eu referi que durante a gravidez tinha pedido uma segunda opiniao, tem aparecido um pouco de tudo. Mas queria dizer-lhe que, felizmente, nunca tive razao de queixa de qualquer enfermeira. Umas mais expansivas, outras menos, mas sempre mt profissionais e atentas. O comportamento que tiveram no seu caso é completamente despropositado, sem dúvida nenhuma, mas não perca a esperança porque felizmente a MAC tem excelentes profissionais, nomeadamente, excelentes enfermeiros. Muita força no seu processo. Sei bem quao duro é, nunca passa, mas aprendemos aos poucos a viver com isso. Um beijinho

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  6. Catarina diz:

    Olá Cláudia!
    Nem sei bem que lhe dizer…
    Sou Enfermeira e, acredite, já confortei muitas mulher e homens com um abraço silencioso, com todo o espaço e tempo para lágrimas, para porquês…
    Não tenho palavras para a atitude da minha colega! Lamento muito muito o que passou com ela! E lamento mais ainda a situação que está a passar com o seu bebé!
    Coragem!!! <3
    Um grande beijinho e um abraço bem apertado

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  7. AN diz:

    Querida pessoa, sou médica e às vezes sou má. Transformamos o mal dos outros na nossa rotina. É a única maneira de sobrevivermos. Não devia ser assim… eu sei. Aquilo que é fundamental para si devia ser, para nós, a nossa única preocupação, mas não é. Não temos tempo nem educação para isso. Sofremos, não pense que não sofremos. Sofremos todos os dias com as coisas que temos que dizer. Temos dias melhores e dias piores. Como você e toda a gente. Temos dias em que conseguimos ser mais e dias em que conseguimos ser menos empáticos. Morrer para nós, é normal. As pessoas morrem. Os bebés que ainda não nasceram e o/a velhinho/a de 97 anos que era tão importante para aquela pessoa. Morrem todos os dias, aos milhões. Morrem, morrem, morrem, morrem e nós conseguimos fazer muito pouco para o evitar. Às vezes até é bom que morram, porque acaba com um sofrimento que é impossível de lidar. Tenho pena que seja assim. Mas a minha pena não serve para nada. Esforçamo-nos diariamente para que assim não seja. Mas é. Então, temos que arranjar uma carapaça dura para que nada nos atinja e até para nos conseguirmos rir das desgraças dos outros. Sim! Rimo-nos das desgraças dos outros. É verdade. Rimo-nos das desgraças dos outros. Chamasmo-lhe humor negro, para disfarçar o desconforto. Como se não fosse, nem pudesse ser, connosco. A empatia, é um privilégio no sistema nacional de saúde. É um bónus. Não temos tempo nem formação para ser empáticos. Este vai viver, aquele vai morrer. É assim… Fazemos o melhor que podemos para todos viverem… e viverem com qualidade…. conseguimos de vez em quando. Quando fracassamos, ou seja, quando não conseguimos, às vezes não somos empáticos. Muitas vezes. Mais do que gostaríamos. Pedimos desculpa.

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    • Débora Tinoco Ribeiro diz:

      Desculpe sra. dra. mas tenho de lhe perguntar: ser empático requer mais tempo do que não ser???? E a sério que é preciso formação para agir humanamente, empaticamente, para com outro ser humano em sofrimento…..?!?! Se calhar, temos conceitos diferentes de empatia….e de humanidade….. Lamento mas custa-me compreender a sua justificação….felizmente que há muitos colegas seus que têm tempo e formação.

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    • Inês Sofia diz:

      Sim, realmente é notória a sua falta de empatia! Assim que comecei a ler o seru comentário reparei logo que, de humanidade, tem muito poucvo pois ninguém com bom senso e com o mínimo de sensibilidade de dirige á autora deste texto com uma experiência tão traumática por “Querida pessoa”. Aí se vê a qualidade de médica que será… Todo o seu relato, cara(o) AN, remete-me para aqueles serviços de urgência hospitalar onde o utente é a figura chata que se meteu entre a pausa para o café, para o cigarrinho, para qualquer tipo de alimento…
      Pergunto: se as pessoas são assim tão chatas, porque se dá ao trabalho de lhes salvar a vida? Apenas para as estudar por dentro??????
      Dou graças por nem todos serem como você. Dou graças por (eu) ter de conviver com profissionais de saúde extremamente bondosois e atentos aosd pormenores emocionais…
      Ah… E deixe-me dizer que, esses profissionais essercem no SNS!!!

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  8. Isabel Rosa Amor diz:

    Querida Cláudia
    De facto não podemos generalizar
    Há alguns anos atrás perdi uma bébé com 26 semanas. Estive internada 15 dias no Hosp. Fernando Fonseca e sempre fui atendida de uma forma extremamente profissional mas principalmente muito humana e carinhosa. A vida muitas vezes é estranha e só mais tarde alcançamos porque é que certas coisas nos acontecem. Uma coisa é bem verdade, o que não nos mata torna-nos mais fortes. Um forte abraço!!

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  9. Pingback: Sobre a empatia
  10. chokole diz:

    Também fui seguida no Alto Risco Gêmeos da MAC e também senti alguma vezes a tal falta de empatia… acho que o fazem como defesa porque dão muitas más notícias por dia e não se querem envolver pessoalmente para cada caso.
    No meu caso morreu uma das gêmeas aos 4 meses de gravidez e a notícia foi, a meio de uma ecografia, uma exclamação de “este está morto” e sai porta fora deixando-nos a mim e ao pai na sala com aquela imagem do feto morto… mais tarde levo com um “prepare-se para fazer um aborto” ao que respondi “e se eu não fizer um aborto????” o que a deixou a olhar para mim com cara de ponto de interrogação ☺ ahhhh mas pode ter ai uma paralisia não sei das quantas ☺
    Acabou por não se detetar nenhuma deficiência e acabou por nascer uma linda bebé com trissomia 21 que é a coisa mais maravilhosa do mundo

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