A minha história de amamentação

Ter filhos não estava nos meus planos a curto prazo. Até que palpei dois nódulos de grandes dimensões na mama. Nesse dia, revi as minhas prioridades e senti o chamamento para ser mãe. Seria possível amamentar? As respostas eram sempre inconclusivas. A minha mãe amamentou-me durante muito tempo e não me passava pela cabeça fazê-lo de outra forma, achava que era a única hipótese (sim, é verdade, nunca me questionei o que beberiam outros bebés não amamentados, acho que presumi que recebiam leite de outras mães). Os nódulos eram benignos mas, mesmo assim, avancei para a cirurgia, pois um deles era mesmo por debaixo da aréola.

Quis o destino que demorasse 4 anos até engravidar e tal só aconteceu após um longo caminho pela infertilidade. O meu filho mais velho, o Gui, foi concebido através de uma ICSI. Ao 5º dia foi um embrião com células “a mais”, congelado, descongelado, transferido para o meu corpo, de onde nasceu a 14 de Novembro de 2012, num dia de greve geral. O parto foi traumático, soube-o mais tarde. Um parto vaginal, muito intervencionado pelos profissionais de saúde, com indução (5 horas após bolsa rota sem contrações), epidural, manobra de Kristeller, episiotomia e fórceps. Nasceu às 38 semanas, no percentil 50, com 3,500 kg. Fizemos pele-com-pele, esteve na minha mama mais de 1 hora e dormiu coladinho ao meu peito nessa noite (abençoada enfermeira que me perguntou se o queria junto a mim, depois do pai nos ter deixado sozinhos por ser de noite e não ser permitido ficar connosco).

Duas semanas depois, fui internada no hospital por estar com febre alta. O Gui ficou internado comigo, durante 8 dias, com antibióticos endovenosos e soro. Amamentei religiosamente de 3 em 3 horas, quando no hospital me diziam para o fazer de 4 em 4 horas. Nessa semana, não ganhou nem perdeu peso. Depois, passou a ganhar 14 g/dia. E o médico, amigo da amamentação, aconselhou-nos suplemento via telefone. Valeu-nos o apoio de uma enfermeira, doula e CAM, do centro de saúde, que nos ajudou a não desistir. A mim, valeu-me o apoio do pai – incondicional – que tudo fez para que eu pudesse amamentar da forma como tanto desejava. Olhava para o biberão como uma traição, sentia-me incompetente, culpada por não conseguir alimentar a minha cria. E o meu bebé mal conseguia beber o leite, engasgava-se, lutava, quando na mama tudo era tão pacífico.

Ao mesmo tempo, tive que lidar com flashbacks de abusos que sofri na minha infância. Ter o meu corpo disponível mesmo quando não queria, sobretudo com o cansaço e a privação de sono, foi um enorme desafio. Sinto um enorme respeito por quem decide não amamentar, pois nem sempre sabemos quais são as motivações por trás dessa decisão. A minha missão é ajudar quem, de facto, deseja amamentar e procura apoio especializado. Porque amamentar é uma coisa natural mas, infelizmente, não vem com naturalidade.

Li muito, falei com muitas pessoas. Entretanto, fiz a minha formação de CAM, pois já ajudava muitas mães à distância, mas queria fazê-lo ainda melhor. Durante este período decidimos que eu ficava com o Gui a tempo inteiro. O tempo foi passando, descobri o conceito de desmame natural – o respeito máximo pelo tempo da criança. O Gui mamou até aos 2 anos e meio, quando decidiu não mamar mais. Não foi uma decisão tranquila para ele. Recusava a mama, mas precisou de muito carinho e afeto. Eu já acusava algum cansaço e não voltei a oferecer. A nossa jornada ficou por ali. Para sempre o meu amor por ele e o amor dele por mim, numa jornada nem sempre fácil.

Para além do cansaço, a vontade de engravidar de novo e a necessidade de recorrer aos embriões congelados pressupunha que não estivesse a amamentar. Quis a vida que engravidasse espontaneamente, 5 meses depois do desmame do Gui. Nesta altura, já tinha feito a minha formação de doula e decidido que a minha vida seria apoiar as famílias na transição para a parentalidade. Foi uma gravidez tranquila. Fui acompanhada por uma doula, a Márcia Sampaio, que me tornou uma pessoa mais confiante, assim como me inspirou a ser uma doula mais próxima das pessoas. Para além dos conhecimentos técnicos, é fundamental a empatia pela família que temos à nossa frente.

A minha Bia nasceu em Agosto de 2016, num doce dia 12, de um parto natural maravilhoso. 4 quilinhos de gente, sem epidural, com a força que todas a mulheres guardam dentro de si. A gravidez e o parto da Bia foram dois eventos que devolveram a confiança no meu corpo e na minha vontade. Senti que, depois disto, nada é impossível para mim.

A Bia mamou naturalmente, sem problemas de maior. Ao 3º dia foi internada por suspeita de infeção do cordão umbilical. Ficámos sempre juntas, durante uma semana, enfrentando vários desafios num hospital, supostamente, amigo dos bebés. A vinda para casa foi feita com muita alegria, finalmente reunimo-nos em família. Os conhecimentos sobre gravidez, parto, amamentação, sono, babywearing e massagem infantil têm sido imprescindíveis para tornar os nossos dias um pouco mais tranquilos.

Ainda assim, a confiança por vezes treme, e nada como ter uma boa rede de apoio, que me ajuda a encontrar o norte sempre que preciso. O apoio da minha amiga Patrícia Paiva, foi fundamental. Com 1 mês e meio de Bia, regressei ao trabalho e, por vezes, tenho que estar distante dela. Só com o apoio do pai tem sido possível termos uma jornada mais segura e feliz.

Quando nasce um bebé, nasce também uma mãe e um pai, muda a dinâmica familiar.  Os meus filhos são os meus maiores mestres, com eles aprendi e aprendo a ser Mãe a cada dia que passa. Com a minha experiência pessoal e com a experiência das famílias que acompanhei, espero prestar sempre um serviço de excelência.

Cada bebé é um bebé, que tem a sua individualidade e a sua própria história para contar. Assim como cada mãe e cada pai. É preciso uma aldeia inteira para cuidar de uma criança. Vamos fazer este caminho juntas? :-)

2 thoughts on “A minha história de amamentação

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