Mas ainda mama?!

Tens que tirar a mama! Porque já tem dentes. Porque já anda. Porque já fala. Porque faz cáries. Porque tira cálcio dos ossos da mãe. Porque vai ficar muito dependente da mãe (e a mãe quer-se “livre”). Porque é nojento e uma vergonha. Porque tira intimidade ao casal.

Se ganha pouco peso, se ganha muito peso, se fica ‘demasiado’ tempo na mama, se não dorme 12h seguidas, se só adormece na mama, se só quer o colo da mãe, se não come os sólidos, se respira… Tudo, portanto.

Mas ainda sai alguma coisa? Isso a partir dos 6 meses já não faz nada! Isso é só mimo! O vício da mama! Está a fazer da mama chucha! (Mas afinal o que surgiu primeiro? A mama ou a chucha?)

Ou… “Só queres o horário reduzido!” e “Só queres é mostrar as mamas!” E ainda pode piorar… “Depois não se admirem que na adolescência elas queiram mamar outras coisas!”

Estas são os disparat… errr… os motivos mais comuns que as mães amamentadeiras ouvem.

Vindo do médico pediatra, do médico de família, do médico da medicina do trabalho. Do obstetra. De enfermeiras. Da vizinha e da senhora do café. Vindo da mãe e da sogra. Por vezes até do próprio pai da criança, que se julga o detentor supremo dos seios de sua amada!

O que dizem os entendidos?

A Academia Americana de Pediatria recomenda a amamentação por pelo menos 1 ano e até que mãe e filho entendam. A Organização Mundial de Saúde e a UNICEF recomendam a amamentação por, pelo menos, 2 anos. E não, não é apenas para os países em vias de desenvolvimento. A nossa DGS recomenda o mesmo. Quando são os profissionais de saúde a opinarem sobre a matéria, é grave. Costumo sugerir que perguntem: isso que me diz é baseado em evidência científica? Ou é baseado na sua opinião? Um médico que sugere o desmame está, no mínimo, mal informado.

* Pausa para RESPIRAR FUNDO *

Mãe, o que sentes no teu coração? O que te diz o teu instinto?

Muitas mães sabem no seu íntimo que estão a fazer o melhor por si e pelos seus filhos. Mas ficam inseguras, por recearem estar a prejudicá-los de alguma forma. E nada como estarem na posse de informação para decidirem em consciência. E nem sempre uma bata branca é sinónimo de conhecimentos sobre amamentação.

Mas porquê amamentar durante tanto tempo?

As crianças mamam pelos mesmos motivos que os bebés o fazem: por motivos nutricionais, conforto, para se acalmarem e se sentirem seguros. As mães amamentam porque  reconhecem as necessidades dos seus filhos, apreciam a proximidade, querem oferecer conforto e compreendem que existem benefícios para a saúde. E sim, as mães amamentam porque gostam e não há nada de errado nisso! Se a mãe se sentir cansada, então a conversa é diferente: existem estratégias para se fazer um desmame gradual, com respeito pela criança. Acima de tudo, o respeito pelo tempo e relação entre ambos.

Mas não vai ficar demasiado dependente da mãe?

A amamentação ajuda uma criança no seu processo de desenvolvimento. Contrariamente ao que muitos dizem, uma criança é tão mais dependente quanto se sente insegura. A nossa sociedade acha que se deve dormir sozinho demasiado cedo, desmamar demasiado cedo e estar longe dos pais demasiado cedo. Qual é a pressa? O bebé nasce e é visto como um ser dependente que deve ser tornado autónomo. Noutras culturas, tais como as orientais, é comum observar-se o contrário: o bebé nasce como um ser independente que deve ser trazido para a família e tornar-se interdependente.

Uma criança que vê as suas necessidades satisfeitas, elas acabam por desaparecer. No entanto, se não são satisfeitas (como a proximidade da mãe), podem acabar por permanecer de forma negativa ao longo da vida. Ao desmamar naturalmente quando está preparada, uma criança sente que alcançou algo e segue em frente com segurança. É com orgulho que transpõe esse marco na sua vida.

Dar de mamar é uma excelente forma de promover o vínculo, é uma forma da criança sentir o contacto com o corpo da mãe, de acalmar e também uma forma da mãe se sentir capaz e confiante de que sabe tratar do seu filho. É uma das formas de promover o apego seguro da criança. É absurdo forçar uma criança a gatinhar, andar, ou falar se ela não estiver preparada. Porquê então forçar o desmame?

E não, a criança não vai mamar até ir para a faculdade. Por isso sim, estar muito apegado à mãe só pode ser bom e a isso chama-se vinculação.

Mas o leite a partir dos 6 meses ainda faz alguma coisa?

Leite materno é, no fim de contas, leite. Continua a conter proteínas, gordura e outros nutrientes importantes. E também fatores imunológicos que ajudam a proteger as crianças contra infeções que surgem durante a infância. De facto, muitos destes fatores, estão presentes em valores superiores no 2º ano de vida. O leite materno continua a conter fatores especiais de crescimento que ajudam o sistema imunitário a amadurecer, bem como o desenvolvimento do cérebro, intestinos e outros orgãos. Estudos demonstram que as crianças que estão nos infantários e são amamentadas têm menos doenças, e/ou com gravidade inferior, do que as crianças que não estão a consumir leite materno. Se nada mais convencer o seu patrão, este é um ótimo argumento para continuar a amamentar (mesmo sem a redução horária a que tem direito!).

Mas afinal que características tem a amamentação?

♥ Boa para o sistema imunitário! Leva entre 2 a 6 anos até que o sistema imunitário da criança esteja amadurecido. O leite materno continua a complementar e reforçar o sistema imunitário sempre que seja oferecido.

♥ Boa para o desenvolvimento oral! A amamentação proporciona uma sucção não nutritiva que promove um bom desenvolvimento oral, melhorando também a fala.

♥ Boa para o QI! Existe uma extensa lista de estudos que demonstram a relação entre o desenvolvimento cognitivo e a amamentação, sobretudo nas crianças amamentadas por mais tempo.

♥ Boa para a independência! O processo pelo qual as crianças passam rumo à independência não é nada fácil. A amamentação pode proporcionar sentimentos de amor, conforto e proteção. Quando uma mãe está disponível para amamentar numa situação em que a criança não consegue gerir sozinha, a criança irá desenvolver a sua independência com base na crença que a mãe estará ali para ajudá-la. À medida que vai ficando mais velha, serão cada vez menos essas situações. A independência surge com o desenvolvimento das suas competências.

♥ Boa para a Auto-estima! As crianças não mamam só por fome ou prazer mas, sobretudo, quando se sentem sozinhas, ameaçadas ou com dor. A resposta da mãe através da amamentação leva a um vínculo mais forte e profundo. Permitir que uma criança mame respeitando o seu ritmo é a expressão máxima de confiança que contribui para a sua auto-estima.

E para as mães?

♥ Amamentar alivia o stress! A amamentação suprime a resposta hormonal cerebral face ao stress. É por isto que muitas mães reconhecem que se sentem mais calmas e com maior capacidade para lidar com as adversidades enquanto amamentam. Para além disso, ao amamentar, a mulher está a ser inundada da ocitocina, a hormona do amor. Não só se sente mais tranquila, como consegue dormir melhor durante a noite. A par disso, o leite materno é rico em nutrientes indutores do sono na criança.

♥ Garantia de momentos calmos durante o dia! Ser mãe é desafiante. As crianças com 2, 3 anos são um vulcão de energia e tudo é motivo para os manter ocupados. A mãe pode contar com pausas com qualidade quando está a amamentar, seja para acalmar uma criança em fúria e reconectar com ela.

♥ Risco menor de contrair certas doenças! Existem evidências científicas que apontam para uma redução da probabilidade de incidência de cancro de mama bem como da osteoporose.

♥ Amenorreia! A fertilidade está reduzida enquanto se amamenta e há mulheres que estão sem menstruar mais de dois anos. Mesmo quando já passou a fase de proteção contra uma gravidez, há mulheres que apreciam a ausência de menstruação.

Por isso, mãe, tu que sentes alguma insegurança no teu coração: respira fundo e confia no teu instinto!

Fontes:

Apego – A base que define a nossa relação com o mundo, Laura Sanches (psicóloga)

Breastfeeding a Toddler – Why on Earth? Dr. Jack Newman, Breasttfeeding Inc.

Breastfeeding Beyond a Year: exploring benefits, cultural influences, and more, La Leche League

Breastfeeding Toddlers, La Leche League

What are the benefits of breastfeeding my toddler?, La Leche League

Foto gentilmente cedida por Cláudia Arcos, amamentadeira e mãe de 3, mulher empreendedora na Arco-Íris Cor-de-Rosa


 

Vamos conferenciar? :-) Todos os detalhes em mimami.org

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18 thoughts on “Mas ainda mama?!

  1. Claudia diz:

    Olá! Eu dei de mamar até aos 4… sempre decidi que seria um desmame natural. E a minha filha era super apegada à maminha, mesmo :) eu confesso que já estava um pouco cansada a chegar aos 4 anos (mas é claro que dar de mamar aos 4 anos, nao é como aos 6 meses… é menos vezes, é mais rápido, é só miminho mais do que alimento, acho eu,,, mas deixá-lo ser!). Mas… a minha filha adorava a maminha e nem pensar em tirar (nem me atrevia.. quando sequer abordava o assunto eram logo lagrimas, era de dar dó..)…
    entretanto foi mesmo por um quisto num dos peitos que começou a ser cada vez mais doloroso, e possivelmente por haver menos leite (?) e daí… foi saindo, foi passando. Ela tem 5 anos, não foi assim há tanto tempo :)
    Se pudesse e já não me doesse, dava sim… agora ela ja nao lembra mas quando ela percebeu que já nao estava a sair mais leite (ou sabia mal?) foi começando assim o desmame…
    Mas ainda ouvi inúmeras vezes dela “quem me dera ser bebé para poder mamar outra vez…”…
    Nem vou contar as inúmeras vezes que ouvi todos esses comentários que colocou no texto, tudo… felizmente (ou não!!) só os ouvi a partir dos 2 anos de idade da minha filha… e até mesmo do pediatra da altura.
    Momentos super ternurentos, em que eles voltam a ser bebés de meses com aquelas carinhas a mamar, sem palavras, e sem preço :)

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  2. Marta Inês diz:

    Eu amamento a minha princesa e não tenciono fazer desmame, ela sente se bem a mamar e eu também. Ela sorri quando quer mamar e bate palminhas assim que vê a mama. Tem 14 meses. E sim, já ouvi tudo isso, vivo em Inglaterra e aqui ainda é pior. Sugerem que se leve a latinha do leite para o hospital. Por outro lado, as parteiras, principalmente elas e até hoje só elas, vêm uma mãe que amamenta como um ser especial. E não é nada fácil. Mas os sorrisos deles compensam.

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  3. Sara de Sousa Moledo diz:

    A minha filha mais velha mamou 41 meses. Largou quando quis, mas nunca esteve doente, tomou o primeiro antibiotico com 5 anos. A minha filha mais nova tem agora 7 meses, e apenas come a sopinha ao meio dia, depois é apenas mama e pesa 10kg ;) Espero poder fazer como da 1a. ;)

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  4. Anónimo diz:

    O meu filho mamou até aos 25 meses e deixou de mamar porque eu estava grávida de 6 meses. A minha filha mamou até 39 meses e deixou por ela. Sem pressões ou pressas. Em qualquer um dos casos foi tudo natural. Os meus filhos são independentes, saudáveis e duas crianças muitos activas. As vezes que estiveram doentes a mama sempre ajudou na sua recuperação.

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  5. Regina Saraiva diz:

    O meu filho Mamou até aos 6 anos, sim 6 anos!!! Nunca esteve doente. Otite nem pensar, colocava o leite nos ouvidos dele. Hoje tem 18 anos, tem uma cabecinha super inteligente. Em 5 meses ele tirou à carta, passou no exame do 12° ano, entrou para universidade e nisso tudo ainda trabalhava. Em relação à irmã que até aos 6 meses, por opção dela, Não quis mais. Já é muito diferente. Muito estudiosa, mas não é como o irmão. Ele não estuda NADA, e sempre tem ótimas notas. A irmã, estuda como uma louca, e não consegue ser igual à ele. Aí é que eu vi a importância do leite materno. NÃO TIREM FOS VOSSOS FILHO.

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  6. Lilly Sotnas diz:

    Boas! Sou a mae do Artur (3a4m) e ainda não decidimos quando vamos desmamar..A medica de família já passou exames para mamografia de rotina a ver se a mãe percebe que esta na hora de parar, enfermeiras acham que vou aleitar ate a faculdade, avos opinam que pode contribuir para uma perturbação emocional, esposa nem sempre tolera esta vinculação, outsiders acham que já não alimenta ou que e só vicio, irmão não compreende apego tardio(!?) a este nível, pediatra já desistiu de insistir a partir dos dois anos…mas também ha o revés da medalha…forca e apoio da irma devidamente informada cientificamente, apoio de muitas avos no parque infantil, praia, meios transportes públicos, amigas mamas… Acreditamos no desmame natural e aproveitamos o nosso momento de qualidade e amor. Mama e Artur

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  7. Maria Ferreira diz:

    Sinceramente eu devo ser mesmo uma “mãe de outro planeta”! Nunca amamentei por opção,nem sequer tentei e não me arrependo! E é tudo muito relativo pois tenho dois filhos super saudáveis,de 4 e 8 anos,que nunca tomaram um antibiótico e,tirando uma gripe ou constipação perfeitamente normais,nunca estão doentes!
    Respeito quem quer e gosta de amamentar(apesar de não perceber o que isso tem de tão maravilhoso), mas acho que devia haver mais respeito e compreensão para com as mães que não o querem fazer! Nós somos sempre criticadas e discriminadas!
    Não amamentei por opção, odeio a ideia sequer de estar tão dependente ou de ter alguém tão dependente de mim e se,por acaso algum dia tiver outro filho não o pretendo fazer!

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  8. Cristina Cardigo diz:

    Maria Ferreira, no Mimami respeitamos as decisões das mães que querem ou não querem amamentar. Não há um único artigo no nosso blogue que as discrimine. Como doula, tenho consciência que há vários motivos que podem levar uma mãe a não amamentar, alguns mais explícitos, outros mais secretos.

    O que fazemos aqui é apoiar e dar voz às mães que desejam dar de mamar e lutar contra a discriminação, crenças e mitos que existem em torno de algo tão natural como amamentar. Esse é o nosso foco.

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  9. minhababinca diz:

    Quase a chegar aos 24 meses (Foste a minha casa Cristina como conselheira de amamentação que a xavala só mamava com os bicos de silicone)…Está para durar até quando nós as duas quisermos. Tudo o resto à volta é só resto é pouco me interessa. Obrigada pela ajuda e sobretudo pela frase qUE ficou para sempre na minha memória “as mamas não são um armazém de leite, são uma fábrica…o leite nunca acaba”.
    Beijinho

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