Congresso Nacional de Prematuridade

Aguardava com expectativa este congresso, promovido pelo PIN – Centro de Desenvolvimento e Associação XXS. O programa parecia completo e o preço uma pechincha: 15€. Inscrevi-me sem esperar, numa semana cheia de compromissos profissionais e familiares.

E lá fui eu. Bia no pano, um dia inteiro num congresso, algo que já não era novidade para nós, mas que não deixa de ser exigente.

Com os atrasos normais num sábado em que se tem também o mais velho para cuidar, cheguei já se tinham iniciado os trabalhos. Na admissão, oferta de um saco de plástico Nestlé Nan. Ora bolas! Mas o congresso não é livre de influências comerciais? perguntei-me. Recusei o saco mas pedi para ver o que podia aproveitar do seu interior. Uma amostra de promil e uma caixa de colimil. Oh diabo! Isto não é nada bom sinal! Ofertas de placebos, quando bebés e mães pouco precisam disto?

Vou tentar manter a minha mente aberta. De certeza que os oradores vão valer a pena!

Cheguei a tempo de ouvir as pediatras Maria do Céu Machado e Andreia Leitão. Gostei e consegui tirar bastantes referências para aprofundar em casa. Gostei menos de ouvir a primeira oradora dizer que um bebé que continue a dormir com os pais “por aí afora” é um adulto que vai ter bastantes problemas de sono. Gostei bastante da forma apelativa da segunda oradora, que usou um powerpoint bastante cativante.

Gostei ainda mais da enfermeira Thereza Vasconcellos, Enfermeira-chefe da Neonatologia do Hospital S. Francisco Xavier, que veio falar sobre o toque no prematuro. E do orador Henrique Barros (Investigador do EPICE, Presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, sobretudo quando referiu que a alimentação do recém-nascido prematuro deveria ser 100% aleitamento materno e está muito longe disso. Que o que falta é haver 1 pessoa na equipa inteiramente dedicada ao aleitamento materno. Consegui, também, tirar algumas referências de autores para aprofundar em casa, para além do que aprendi com a partilha da sua experiência.

A oradora Paula Guerra, Co-Fundadora da XXS, falou com entusiasmo da associação. E sempre que esteve na plateia, ofereceu-me apoio com um sorriso afável, já que grande parte do congresso estive de pé com a Bia em movimento. Não consegui ouvir a fisioterapeuta, pois valores mais altos se levantaram (uma muda de fralda inadiável). Voltei a tempo de assistir à apresentação da Terapeuta da Fala Ana Paris Leal, cujo tema era Sondas, biberões e colheres: a alimentação do prematuro. Como conselheira em aleitamento materno, toda eu era ouvidos. Falou-se muito pouco, quase nada, sobre amamentação vs. biberão e influência de ambos. Alguém perguntou sobre a utilização do copinho, cuja resposta foi “copinhos há vários, o que temos é que olhar para cada família”. Perguntei sobre o baby-led weaning (BLW) e as vantagens de deixar a criança explorar os alimentos em oposição a ser alimentada com sopas ou papas por colher. E no desafio que pode ser perante a preocupação dos pais face ao ganho de peso de um prematuro. Ouvi que “vão surgindo várias modas e que é importante olhar para a dinâmica de cada família”.

Já com algum cansaço, mas decidi esperar pela psicóloga Mafalda Leitão (PIN e Hospital Beatriz Ângelo), para ouvir a apresentação Da incubadora ao berço: o sono do bebé. Primeiro slide, fonte Estivill 2016. Toda eu tremi. Estivill, o homem que fala em treino de sono para bebés. Em deixar chorar ao ponto de um bebé vomitar e não se trocarem lençóis. Os bebés devem dormir no seu vomitado para aprenderem a se auto-consolar. Mas está tudo doido? Num congresso de prematuridade, uma apresentação em que se diz que todos os bebés, aos 7 meses, já têm capacidade de dormir uma noite inteira (o que é isso, já agora?) e de se auto-confortar?

Eu podia apresentar uma listagem de artigos baseados em estudos científicos que demonstram os danos físicos e emocionais que um bebé pode sofrer. Podia falar no James McKeena ou na Helen Ball que até estiveram recentemente em Portugal. Ou, se é para citar um pediatra espanhol, que se escolha o Carlos Gonzalez. E se quiserem explicações em português sobre o que pode acontecer a um bebé a quem se faz o treino do sono, aqui estão elas dadas pela Constança Cordeiro Ferreira.

Mas é bom-senso minha gente! Esta apresentação foi baseada num autor que considera normal chorar até vomitar. Ponto.

Depois, vimos até campanhas que comparavam o co-sleeping (bebé dormir na mesma cama que os pais) a um bebé dormir ao lado de um cutelo. Ou que a cama dos pais é o caixão do bebé. Ora, não seria muito mais útil pegar nas recomendações da UNICEF para o sono feito de uma forma segura?

Não consegui assistir mais. Senti-me defraudada, no mínimo. Com o sentimento de “parem o mundo que eu quero sair”. Para poder questionar, teria que esperar mais 1 hora, pois faltavam 2 oradores. E o relógio batia as 17h, eu estava com um bebé de 3 meses. Para além disso, o sistema de perguntas baseava-se num papel escrito, em que a pergunta a colocar aos oradores era escolhida previamente. Em casa, ainda peguei na brochura do PIN que, entre outros serviços, promovia uma sessão chamada “Dormir como um bebé”, Soluções para os pais dormirem. Paradoxal, não? O normal num bebé é acordar várias vezes durante a noite.

Todos os bebés precisam de amor. Os prematuros, mais ainda. Não é preciso nenhum estudo para saber isto. Basta sentir. Com o coração. Os bebés e as suas famílias merecem muito mais do que isso.

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