És feio!

Para terminar o dia de ontem em beleza, fomos dar um passeio pelo largo da igreja, com visita ao ecoponto incluída. Disse-lhe que íamos comprar pão, só não expliquei que não íamos ao Minipreço, mas sim a uma lojinha de produtos transmontanos que fica do outro lado da praça.

Refilou, debateu-se, puxou-me. Disse-lhe que, se queria tanto ir ao Minipreço, então que cada um ia para seu lado e depois nos encontraríamos em casa. Gritou, esperneou, nada o demovia. Tentei acolher, tentei fazer vista grossa, tentei esperar, tentei apelar ao bom-senso. Mas o crocodilo que habita o meu ser estava já em alerta.

– És feio!

Diz-lhe uma senhora de idade que ia a passar. Ora bolas, caraças para a senhora! Feio? Porque está a sua vontade está a ser contrariada? Porque sente frustração e está a expressar-se livremente?

Ando um pouco cansada de ouvir da boca dele coisas como “portaste-te mal, estás de castigo o dia inteiro!”ou “fizeste uma coisa muito feia!” Em casa, tento desconstruir tudo isto, perguntar o que é “portar bem” ou “portar mal” e o que é um castigo, tentar perceber se resulta para alguma coisa. Quando começa a ser demais, digo-lhe mesmo que é uma conversa que não temos em casa, aqui não há “portar bem ou mal”, assim como não há comportamentos “feios ou bonitos”. O mundo não é a preto e branco! O mundo tem tantas cores, assim como as nossas emoções! Aborrece-me tanto que digam que ele é um menino lindo (porque se porta bem) como dizerem que é feio (porque se porta mal).

Podia ter ignorado, ter feito orelhas moucas mas, naquele momento, respondi. Perguntei à senhora se a ela também lhe diziam que era feia quando é contrariada. “Ah, mas ele é bonito!” quase como se me pedisse desculpa. Mas e se, aos olhos dela, não fosse? “O meu filho está frustrado porque está a ser contrariado. Não tem nada que dizer que é feio ou bonito!”

Se não se tem nada de útil para dizer e não vem ajudar, então deixem-nos lá em paz a gerir as nossas frustrações (de filho e de mãe)!

One thought on “És feio!

  1. Alexandragoncalves.adv@gmail.com diz:

    Concordo totalmente. tenho vindo a explicar a quem nos rodeia: “portar bem/mal” é um conceito em aberto. Não tem qualquer valor objectivo, não há definição, concretizações, justificações.
    Como a nossa alimentação segue um processo de respeito pela autonomia e independência da nossa filha, os primeiros embates começaram à mesa dos avós. …
    Abomino que digam que a minha filha é bonita porque comeu muito. Mas confesso que fico satisfeita quando a vejo comer com apetite. Estou numa aprendizagem e no caminho encontro muitos “alunos” imprevistos.

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