Eu sou uma mãe prematura

O meu filho nasceu de 30 semanas, com 1.460kg diziam que ia ser um bebé muito grande, maior que a mana que tinha nascido com 3.810kg.

Dei entrada no hospital com 27 semanas e uma ruptura de membrana. Não estava preparada para deixar a minha filha de dois anos, estava completamente descontrolada, sentia-me culpada  e só pensava  isto não me pode estar a acontecer.

Ele não nasceu nesse dia só dai a duas longas semanas de repouso absoluto é que a mãe natureza se encarregou de o expulsar do meu Útero pois já não era um local seguro para si.

Quando me avisaram que ele ia ter de nascer, pois os meus niveis de infecção tinham subido,  perguntei se era possível nascer de parto natural e se eu  ia ter leite, uma enfermeira tranquilizou-me que sim.

Ele veio ao mundo as 21.31h e, tal como o dia de tempestade que se fazia sentir, também o seu nascimento foi uma tempestade que tive medo que nunca passasse.

Vi o meu bebé por breves segundos e ele teve que ser levado para a caixinha mágica como ainda hoje lhe chamo para ser observado. Só tive possiblidade de ficar junto dele no dia seguinte quando me levantei às 7 da manha e subi a pé dois andares,  entrei num espaço que até então me era totalmente desconhecido: a unidade de cuidados intensivos de bebés recém nascidos.

Foi simplesmente horrível, alarmes e máquinas desconhecidas, o cheiro do desinfetante que até hoje me faz escorrer lagrimas e o meu bebé numa caixa ainda com o sangue no cateter, ventilador, com fios e mais fios, um oximetro à volta do seu pé minúsculo… sei lá era tanta coisa e ele não merecia estar ali, ninguém merece. Naquele momento o meu mundo ruiu e, pela primeira de muitas, pedi-lhe… por favor, luta que eu também vou lutar, não me abandones.

A médica dele explicou-me o que se passava e disse a frase mais repetida da ucern: Mãe, esperança, mas aqui vive-se um dia de cada vez.

Procurei  ajuda para estimular artificialmente o peito e ajudar o meu bebé com o meu leitinho mas as coisas nem sempre correram bem, cada uma dizia uma coisa e passado 24 horas em vez de colostro  tinha sangue. O meu peito estava altamente sensível tal como eu, a minha médica pediu-me para parar a estimulação pois não podia dar leite com sangue ao bebé e tinha de dar tempo às maminhas para recuperarem. Mais uma vez senti-me culpada e a falhar.

O quadro piorou ele não aceitava leite artificial, não aborvia nem uma gota e em três dias ficou com 900g, estava com uma sepsis precoce ou seja passei-lhe uma infecção que se generalizou por todo o corpo.

Sabia mais do que nunca que ele precisava do meu leite, o ouro líquido que eu tanto desejava ter.

Não desisti e apareceu um anjo. A enfermeira Nélia Faria que trabalhava para a sua tese sobre aleitamento materno em prematuros, falou comigo e com o pai sobre extração. Explicamos o que tinha acontecido, ela prontificou-se a ajudar, ensinou-nos a estimular a mama manualmente,  explicando que as máquinas às vezes não são a solução. Procurou saber se havia algum irmão, que pudesse fazer a estimulação em casa, e sim havia a Maria de dois anos também ela a passar por um momento dificil… passou muitas horas na sala de espera ansiosa por um dia conhecer o irmão desejado. Não nos pareceu adequado estar a dar-lhe novamente mama, pois ela tinha feito o desmame pouco antes e não é algo a que eu a queria sujeitar.

A solução encontrada foi  o pai e durante quase 15 dias era ele que durante a noite de três em três horas fazia a estimulação até o leite sair e depois sim a mama já aceitava a máquina.

O meu bebé assim que lhe ofereceram aqueles preciosos 5 ml de leite materno que ele precisava não desperdiçou nem uma gota e foi ganhando peso e expulsando a malvada sepsis do seu corpo frágil mas ao mesmo tempo tão forte.

Por volta das 33 semanas e enquanto partilhavamos os nossos corpos pele com pele ia pondo-o perto da mama e quando alguma enfermeira via eu dizia era só para ele se habituar ao cheiro e namorar um bocadinho. Um dia enchi-me de coragem e coloquei-o na mama. Sabia que estava na hora de mamar e ele, nem que por magia, encheu a barriguinha sem um único senão, foi perfeito.

Chamei as enfermeiras e disse que ele tinha mamado  ainda tinha a sonda para a alimentação no nariz, elas não acreditaram mas eu insisti, eu sabia! Pedi para o aspirarem com a seringa para confirmarem e lá estavam 30 ml de leitinho.

O António foi alimentado em exclusivo até aos seis meses com o leite materno e só deixou a maminha quando quis.

Tirei o curso de conselheira de aleitamento materno  há cinco anos, sensibilizada pela minha própria experiência e a de outras mães com quem convivi na ucern e desde então tenho tentado ajudar os pais que me procuram. Hoje a prematuridade é a minha causa.

Ana Sofia Miranda – Conselheira em aleitamento materno, Fazer Nascer

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