Sobre o #primeiro assédio

A vergonha e a culpa são os principais motivos que levam a que uma mulher se cale. Porque não é suposto falar-se nestas coisas, mulher honrada não tem ouvidos. E esquece, ou melhor, tenta esquecer, engolindo a angústia em silêncio.

Nos últimos anos, tenho vindo a partilhar a minha história com quem me rodeia. Do outro lado, é comum receber um “também passei por algo do género”. Um pouco como a infertilidade, vamos descobrimos a quantidade de casos que existem, mesmo à nossa frente. Mas é tabu, não podemos falar sobre estas coisas, o que irá a vizinha, tia, prima, pensar disso? E descobre-se muitas delas, senão todas, foram vítimas também. E não precisamos de entrar em abusos mais íntimos. Um piropo que não cai bem, um toque que não é suposto acontecer, tudo isso é assédio.

Das trevas por vezes surge alguma luz. As redes sociais foram invadidas por comentários sexuais tendo como alvo uma menina de 12 anos que participa no programa MasterChef no Brasil. Da revolta perante o assédio a uma criança surgiu uma campanha que está a correr o mundo e a pôr milhares de mulheres a partilhar histórias de abusos através da “hashtag” #PrimeiroAssédio.

No Twitter da Think Olga (@ThinkOlga), conhecido pela luta contra o assédio em espaços públicos e outros tipos de violência contra a mulher, foi criada a etiqueta #Primeiro Assédio e pedida coragem às mulheres. Contem quando foi a primeira vez que foram assediadas e exponham um problema que, erroneamente, continua a ser encarado como “brincadeira” ou “normal”, pediram. E muita gente contou — mais de oitenta mil até ao momento de publicação deste artigo. Algumas das histórias são chocantes. Falam de vivências frequentemente ignoradas mas que provocam profundo mau-estar e até trauma.

Este mau-estar e trauma acompanha uma mulher para toda a sua vida. Pode ter impacto no seu relacionamento afectivo com os outros, na sua vida sexual, no parto e até na amamentação. Há mulheres que, com dificuldade, relatam que não conseguem amamentar porque aquele toque lhes faz reviver toda a experiência de um abuso. Não é só a mente que tem memória, a pele também tem.  Com o nascimento de um filho, o momento do parto, a amamentação, são momentos que podem trazer à tona muito deste sofrimento. Que acaba por ser vivido em silêncio. Sempre o maldito silêncio.

E é por isso, por nós mulheres, pelas nossas filhAs e filhOs, que temos que combater o silêncio! Estamos desconfortáveis com algo? Vamos fazer um escândalo!

Porque o assédio e o abuso não têm apenas vítimas do sexo feminino – os homens também são vítimas de violência. Algo que ainda é tabú em países como Portugal, mas que começa a ser encarado como um problema real em países como a Suécia.

Para acabar com este flagelo, só falando e falando muito sobre o tema. Vamos deixar de olhar para o lado, fingir que só acontece aos outros. Vamos educar os nossos filhos para saberem respeitar e para se darem ao respeito, para saberem que têm uma palavra a dizer sobre o seu corpo.

Partilha o que te vai na alma...

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