O animal

As crises que temos passado levam-me a querer ser melhor mãe. Desde que estou a ler o livro da Mia que passei a aceitar mais e a querer controlar menos. Quero adoptar a postura observadora do momento, bom ou mau, mas isto é particularmente difícil quando o animal se solta. Em tempos, referia-me a ele como o “crocodilo” que está na nossa cabeça para explicar ao Gui o que acontece quando ficamos nervosos. Esqueci-me dele e, no momento certo, a Mãegazine mostrou-me este seu texto fantástico:

“O animal está sempre alerta, aliás,
O animal está sempre à coca, à espera do pior.
O animal está num constante estado de vigilância, porque a sua função é defender-nos, por isso
O animal vê uma ameaça em tudo.

O animal protege-nos há milhares e milhares de anos, porque
O animal faz parte da evolução da espécie humana.
O animal habita na parte mais recôndita do nosso cérebro, na parte límbica. Por assim dizer
O animal habita na zona mais profunda – e primitiva – de nós.

O animal não conhece o presente ou o passado ou o futuro. Para ele é sempre presente, por isso
O animal vive TUDO com muita intensidade.

O animal não costuma andar à solta.
O animal costuma estar controlado e, dentro do género, domesticado.
O animal é domesticado pelo córtex pré frontal, que o regula.

O animal, quando domesticado, recebe mensagens do córtex pré frontal a dizer que não é o fim do mundo:

o atraso
a resposta torta
o iogurte estatelado no chão
a porta batida
o leite entornado
a birra
a água salpicada fora da banheira
a lentidão dos gestos

O animal é globalmente semelhante de pessoa para pessoa, mas varia muito a forma como está domesticado – logo, como reage.
O animal pode ter frequentado uma escola boa, com regras e muito, muito afecto.
O animal pode ter sido criado ao Deus dará, como um selvagem, sem rei nem roque.
O animal reage conforme o treino que teve.

O animal manifesta-se de diferentes formas, mais ou menos exuberantes, mais ou menos frias.
O animal pode soltar-se mais ou menos facilmente. Lá está – dependendo do treino a que foi sujeito.

A maior parte das vezes que o animal se solta, não é bonito de se ver.

O animal transfigura-nos, tira-nos de nós.
O animal cega-nos, e aos nossos gestos também.
O animal faz-nos ir para o outro lado do espelho, para uma realidade paralela de que dificilmente suspeitamos a existência.
O animal não reconhece os nossos próprios filhos, acha que são inimigos a abater.
O animal reage de forma desproporcionada porque é a nossa sobrevivência que está em causa. Por vezes essa questão de sobrevivência é apenas

o atraso
a resposta torta
o iogurte estatelado no chão
a porta batida
o leite entornado
a birra
a água salpicada fora da banheira
a lentidão dos gestos

O animal solta-se mais facilmente em certas condições, como a privação (prolongada) de sono; a falta de açúcar no sangue; uma fase particularmentestressante, física ou emocionalmente.

O animal pode ser domesticado à posteriori, com décadas de existência. Nesses casos
O animal é mais resistente ao treino, mas com doses cavalares de paciência, emuitos avanços e recuos, o animal começa a ir ao sítio mais facilmente.

O animal amansa com a meditação, diz quem sabe
O animal amansa com estratégias de distracção.
O animal amansa com muuuuuuuuuuuuito esforço da nossa parte.

O animal não nos enche de orgulho, ao contrário do cão ou gato (ou canário ou tartaruga ou…), mas faz parte de nós e não o podemos ignorar.

Resta-nos por isso empenharmo-nos o melhor que pudermos para o treinar, esperando que esse auto domínio contribua para modelar os nossos filhos, que mais facilmente aprendem a domesticar o seu próprio animal.

ps – podem substituir o animal por a besta, se preferirem um substantivo feminino”

No Mãegazine abordam-se as tentativas, as estratégias, os sucessos e os falhanços da domesticação do animal. Um dia após o outro: uns melhores, outros piores. Também se abordam outras questões, que podes descobrir seguindo por mail, Facebook ou Pinterest.

One thought on “O animal

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