Os primeiros dias de mama do Gui

O início da amamentação esteve muito longe de ser romântica. Os primeiros meses foram um tempo do qual não guardo saudades. Para além de chorar muito, do meu sentimento de culpa em fazer de tudo para o consolar, o Gui não estava a ganhar peso conforme seria esperado. Duas semanas após o seu nascimento, fiquei internada no Hospital de Cascais por 1 semana, devido a febres altas sem explicação.

Felizmente, ele ficou internado comigo e amamentei-o, religiosamente, de 3 em 3 horas, com soro e mais 3 antibióticos intravenosos. Para quem se arrepiou com este horário, devo explicar que me aconselharam no hospital o regime de 4 em 4 horas (sem encontrar consenso quanto a começar a contagem no princípio ou no fim da mamada).

Nessa semana, não perdeu nem ganhou 1g. Estava a ficar sem leite! Saí do hospital com várias garrafinhas de suplemento de leite artificial e com a recomendação da pediatra de serviço para ir à farmácia comprar mais leite e amamentar por 10 minutos em cada mama, não mais do que isso, para não perder o leite. “Então, mas como consigo garantir que ele chega ao leite gordo?” perguntei eu. “Não há estudos conclusivos sobre a constituição do leite, faça como lhe estou a dizer.”

A Cristina racional que ia (quase) sempre na conversa de quem usa uma bata, decidiu não acatar a recomendação. Ainda assim, foi à farmácia, onde aconselharam a comprar, provavelmente, um dos leites artificiais mais caros que tinham à disposição.

Fui para casa a sentir-me a mãe mais incompetente à face da terra. Cansada, eu não estava sequer capaz de preparar um biberão, valeu-me o marido para esta tarefa tão exigente. De notar que, erradamente, nem fervíamos a água, usávamos apenas água engarrafada, pelo que era apenas algo como medir o pó, juntar a água e agitar.

E perguntam-me vocês, então e o pediatra, o que aconselhou?

Antes de ter sido internada, fui a uma consulta aos 15 dias de nascimento, com o pediatra que me tinha sido recomendado por várias amigas, que não se conheciam entre si. Ele dava consultas no triângulo Beloura, Cascais e Oeiras, em caso de urgência seria fácil de ir ter com ele.

Na consulta, com atraso superior a 1 hora, começou por perguntar como lá tínhamos chegado e as nossas profissões e locais de trabalho. Falou sobre impostos, que não os pagava, mesmo que tivesse que receber multas como já aconteceu. Viu o meu filho por 10 minutos, colocou o dedo mindinho na sua boca, sem antes lavar as mãos, e comentou “mama bem!”

Depois, veio o discurso, que temos que ter em atenção o peso, que a mãe não é vaca leiteira, que o peso não estava a evoluir bem, que o importante não é amamentar, o importante é ter um bebé saudável. Deve ter pouco leite, vá comprar Promil, às vezes funciona outras vezes nem por isso, se não funcionar introduzimos leite artificial sem qualquer problema. “Dr. mas as minhas mamas pingam, porque diz que o meu leite não é suficiente?”

Fui para casa e chorei, chorei, chorei. No dia seguinte, fui internada no hospital. Tive que fazer um raio-X ao toráx, enviei-lhe mensagem para saber se podia continuar a amamentar. Disse que não, para introduzir leite artificial. Felizmente, no hospital, vários foram os profissionais que foram unânimes: pode (e deve) continuar a amamentar.

Quando tive alta, fui procurar outro médico pediatra e cheguei a um conhecido médico nas redes sociais por apoiar a amamentação. Este nosso drama coincidiu com a época natalícia e menor disponibilidade para ver o bebé, após a consulta. “Está a ganhar apenas 14g/dia? Introduza o Nidina.” disse-me ao telefone.

O meu filho estava magro. Mas fazia chichi e cocó, com 1 mês começou a sorrir para nós. Fomos acompanhados pela enfermeira do centro de saúde que, depois de muitas tentativas e pesagens, nos disse para “dar tudo o que houvesse para dar”.

Assim fizemos. O meu filho não sabia beber pelo biberão, engasgava-se, o leite saía para fora, era um sufoco para ele, para o pai, para mim.

Eu sentia que era incompetente, que não estava a fazer tudo o que estava ao meu alcance para garantir o seu crescimento e bem-estar. O marido, sempre atento e disponível, incentivou-me a continuar a dar a mama, quanto mais tempo melhor. Então, os nossos dias eram passados assim, o meu filho na mama, um bocadinho de suplemento, íamos vendo filmes e tentando passar o tempo no conforto do lar, já que estávamos no pico do inverno.

Foram 3/4 meses muito duros. Ao mesmo tempo, eu estava a tentar terminar a minha tese de doutoramento, coisa que consegui por volta dos 3 meses.

Não me sinto super-mãe, nem super-louca-obcecada-por-amamentar. Desde que o Gui nasceu que havia um instinto muito forte para o amamentar. É algo animal, não se explica. Não conseguir fazê-lo provocava em mim um enorme sentimento de frustração e angústia. Havia pessoas bem intencionadas que me sugeriam dar leite artificial, porque era mais fácil para todos. Como se eu fosse uma tonta que tivesse prazer em seguir o caminho mais tortuoso. Não era fácil para o meu filho, que não conseguia beber pelo biberão, nem era fácil para mim, porque queria amamentá-lo.

Com esforço, dedicação e um pai muito presente, conseguimos ultrapassar as maiores dificuldades. Amamentei durante 2 anos e meio. Não teria conseguido sem apoio. E é pelo apoio, pela informação fidedigna, que luto sempre. Porque toda a mãe que quer amamentar deve ter direito a apoio de qualidade. 

doula

 

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