Estás cada vez mais parvo!

Mas que estúpido que és! Queres levar um estalo?

Foram 5 longos minutos no provador da Decathlon a ouvir uma mãe e um filho. O rapaz queria vestir as calças na zona das ancas, “porque na cintura parece um tótó”. A mãe queria que ele experimentasse as calças no sítio certo, no umbigo.

Vê lá, porque é que não usas as calças por baixo da pilinha? És mesmo parvo! Não te compro as calças! Vamos embora sem nada!

Os insultos e as ameças seguiam-se em catadupa. Eu pouco ouvia o miúdo. E doeu-me o coração.

Aquela mãe estava cansada, irritada, talvez num dia mau. As ameaças seguiam-se num esforço vão em fazer algo aparentemente simples: experimentar umas calças. O meu filho é mais novo que esta criança e eu bem sei o difícil que é gerir as minhas emoções quando preciso que se vista e ele boicota sucessivamente.

Não te compro brinquedos no teu aniversário, era o que mais faltava! Compro-te roupa e coisas para a escola! Não precisas de brinquedos!

Em 5 minutos, o rapaz foi ameaçado de violência física, foi insultado verbalmente, pela pessoa que devia representar o seu porto-seguro. Como é que fica o conceito de si próprio no meio disto tudo? Não é difícil entender que esta criança está a internalizar todas estas agressões. Para além disso, a ameaça de não comprar brinquedos para o aniversário (que, quase de certeza, não se irá concretizar) e, pior, colocar a compra de roupa e de coisas para a escola como um castigo. Como é que se quer que as crianças gostem da escola se nem em casa se valoriza algo que é para estudar?

Quando presencio estes episódios tenho vontade de abraçar mãe e a criança. Dizer-lhes que está tudo bem, que é só um par de calças. A vida podia ser muito mais complicada, podia nem haver sequer dinheiro para comprar as calças, os brinquedos, o material para a escola. Podia nem haver dinheiro para comprar comida ou medicamentos.

É só um par de calças. E, por um par de calças, está uma mãe irritada, zangada com a vida, a descontar no filho, que está a crescer e a ouvir que é um parvo, um estúpido e está cada vez pior quanto mais cresce.

E nós, à volta, achamos que é normal, porque a mãe está a educar o filho. Que cada mãe é que sabe o que é melhor para o seu filho.

doula

Partilha o que te vai na alma...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s