Respeitar as crianças como seres individuais

O título, lido assim, até parece algo muito óbvio: claro que as crianças são seres individuais e claro que temos de respeitar todos os seres humanos e os animais e o planeta e o universo!

Vá, abrangi o universo inteiro numa tentativa hiperbolizada de fazer pensar numa coisa mais importante: o que é respeitar?

“Respeitinho é bom e eu gosto!” Quantos de nós ouvimos essa frase ao longo da nossa vida até da nossa própria boca?

Respeitar não é fazer a continência a alguém que tem uma postura áspera, rígida, assustadora até. Respeitar é perceber que cada indivíduo tem ideias, vontades e gostos particulares e que tem direito a tê-los e a dizer “não quero, não gosto disto, não me apetece”.

Quem disse que ser pai e mãe é um “emprego de favas contadas” só porque parece que a natureza nos deu órgãos reprodutores é o mesmo que dizer que se a natureza nos deu mãos, todos devíamos saber pintar, cozinhar, escrever. Tudo tem que ser aprendido e os melhores professores dos pais não são os livros sobre parentalidade mas sim os próprios filhos.

Um exemplo simples e muito comum de como desrespeitamos uma criança é este:

Uma criança de 4 anos gosta de comer pão com manteiga e fiambre. Até gosta de queijo, às vezes, mas na verdade gosta mesmo muito de pão com manteiga e fiambre. O/a progenitor/a prepara-lhe o lanche mas engana-se e faz o pão com queijo e fiambre e a criança reclama em tom de choro que não quer o queijo. Cenário mais provável: o adulto diz-lhe “Comes assim ou não comes nada. Já está feito e eu sei que gostas de queijo, por isso come e cala-te ou não comes.”

Isto é desrespeitar completamente a criança. Ninguém diria ou faria isto desta forma com outro adulto. Claro que há muitas coisas que temos obrigatoriamente de fazer diferente com adultos e com crianças e dizer que devemos sempre tratar e explicar a uma criança tudo como se ela fosse um adulto, para mim são teorias abrangentes demais que não ajudam em nada a lidar com as crianças porque as crianças são crianças e não adultos. Mas este exemplo que descrevi acima não tem a ver com a criança ser criança. Tem a ver com a criança ser uma pessoa que merece respeito nas suas preferências. A maior parte das famílias costumam ter refeições stressantes porque as crianças implicam com isto e com aquilo; ontem adoraram feijão-verde e hoje o feijão-verde é “nojentoooooooooooo”!

Mas tudo tem que ser uma luta e a procura de “eu venci porque ele até comeu o pão com o queijo”?

Se estamos com fome e nos dão a escolher entre nada ou alguma coisa “mais ou menos” sabendo que o “muito bom” está disponível, claro que ainda que tristes acabamos por escolher o “mais ou menos”. Ensinamos os nossos filhos a se resignarem pelo medíocre, a aprenderem que a sua opinião não importa porque alguém há-de vir e dizer “eu é que sou o presidente da junta e tu fazes como eu mando”.

Há muitas coisas que podemos permitir no dia-a-dia de uma criança, muitas coisas que não precisamos fazer valer a nossa vontade e não, eles não vão pensar que nos ”ganharam”. Mostrar que respeitamos e valorizamos a criança que temos ao nosso encargo é ajudar a criar um ambiente saudável de paz familiar e ensinamos aos nossos filhos que se nós respeitamos a vontade deles e isso é bom, então também o devem fazer com os outros, inclusive connosco.

Ver o desapontamento na cara de uma criança gera dois tipos de sentimentos: ficamos tristes por a vermos desapontada e da próxima vez pensamos em alternativas para mostrar que respeitamos o nosso filho, ou regozijamo-nos por conseguir vencer a corrida e ficar estampada a nossa “vitória” na cara triste dos mais pequenos.

Que tipo de pessoa queremos ser? Que tipo de pais queremos ser? Que mensagem informal e subliminar queremos passar aos nossos filhos? És um ser humano com direitos e deveres como qualquer um de nós, ou… a lei do mais forte (da selva) é que vale.

Vale a pena pensar nisto.

Marília Campos

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