Circuncisão sem razões médicas, não, obrigada!

Hoje é o dia que um menino de mais de 4 anos irá ser forçado pelo pai a este procedimento. Isto não está a acontecer num país do terceiro mundo, está a acontecer nos EUA.

O motivo não é religioso nem tão pouco um questão de saúde. O único motivo do pai é: eu também sou circuncidado e quero que o meu filho seja igual a mim.

Esta é uma história bem dramática que vou tentar resumir. Quando o menino, Chase, fez um ano de nascido, o pai pediu à mãe para assinar um documento em que ela afirmava que cederia o seu consentimento assinado quando o pai quisesse fazer a circuncisão. Supostamente iria ser feita em breve e pai e mãe teriam ambos de assinar o consentimento médico para essa cirurgia. No entanto a mãe, que até aí nada sabia sobre o assunto, começou a investigar dados científicos e médicos sobre esse procedimento tendo verificado que era completamente desnecessário, doloroso, arriscado, que poderia ter consequências físicas e psicológicas graves quanto maior fosse a criança e as razões fossem meramente estéticas e não de saúde. O pai por sua vez deixou passar o tempo e quando o menino fez 3 anos resolveu que era altura de o “levar à faca”. Perdoem-me a expressão mas é mesmo assim que vejo este pai que de pai pouco tem: um talhante psicopata.

A mãe, que entretanto tinha as suas pesquisas feitas e chegou à conclusão que não iria colocar o filho em risco por uma questão de orgulho masculino, negou-se a assinar o consentimento médico.

Aqui começou a saga dos tribunais. O pai foi para tribunal com a mãe e o juiz, apesar dos avisos médicos contra o procedimento, resolveu dar razão ao pai dizendo que a mãe tinha que assinar o consentimento. Quanto absurdo é isto num país de primeiro mundo? Enfim.

A mãe pegou no menino e refugiou-se num abrigo de mulheres e crianças que sofrem de violência doméstica. Foi encontrada e prenderam-na. Prenderam-na até ela assinar o consentimento. Enquanto tudo isto acontecia, já o menino tem mais de 4 anos, tem consciência de tudo o que está acontecer e está aterrorizado com a cirurgia. Li também que o Chase tem um historial médico único que infelizmente aumenta imenso os riscos desta cirurgia em relação a qualquer outra criança da mesma idade. Mesmo assim, o pai não se importa com isso a não ser fazer valer a posição dele por cima da posição da mãe.

Li também posições de vários advogados sobre este assunto que diziam claramente que o consentimento dela foi coagido e por isso é nulo e que qualquer médico que ceda a fazer a cirurgia poderá perder a licença médica no futuro.

Em Portugal não se fala de circuncisão, muitas pessoas provavelmente nem saberão o que é e por isso deixo aqui uma explicação simples: “A circuncisão é um procedimento cirúrgico no qual se remove o prepúcio, a pele que recobre a glande (cabeça do pénis).”

Mas feita em criança ou bebé por motivos que não médicos, é algo que me ultrapassa e o qual abomino terminantemente.

E enumero 3 razões apenas:

– A circuncisão causa dor nos recém-nascidos trazendo stress desnecessário ao bebé.
– O trauma da circuncisão realizada quando bebé é carregado pelo resto da vida, mesmo que o indivíduo não se dê conta disso.
– A circuncisão falha nos direitos humanos pois mutila um ser incapaz de tomar decisões.

Tendo isto presente, como é possível que um pai, por birra, machismo e pura estupidez, queira provocar dor ao filho ainda tão pequeno mas plenamente consciente do que lhe vai acontecer? Como mãe eu faria exactamente o mesmo que a mãe do Chase. Só de imaginar o meu filho a ser cortado desnecessariamente, dá-me calafrios.

Como é que um juiz permitiu tamanha atrocidade? Obrigar uma mãe a assinar um documento a consentir que magoem o filho e coloquem a sua vida em risco? Esta mãe só assinou quando, já presa por desobediência e sem vergar na sua decisão, o juiz lhe disse que iria passar a guarda total para o pai e ela ficaria mais 4 anos na prisão, e, com essa guarda total o pai já não precisaria de consentimento da mãe. Esta mãe não teve escolha, perdia de ambas as formas. Isto dá-me vómitos.

Num mundo civilizado, como é possível a justiça não pensar no bem-estar da criança acima de tudo? Não entendo. E não entenderei nunca.

Espero, até ao último momento, que alguém consiga salvar este menino e ele não seja forçado a esta cirurgia absurda. Ficarei atenta e ansiosa e gostaria muito de vir cá amanhã dizer que no último minuto a cirurgia não aconteceu.

Marília Campos

One thought on “Circuncisão sem razões médicas, não, obrigada!

  1. Andrew Damasceno diz:

    Parabéns Marilia.
    Estou certo de que é uma MÃE (maiúscula) para o seu filho.

    É raro encontrar mulheres assim.

    O trauma não é apenas psicológico, mas físico.

    Gostar

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