Vidas migrantes e escola dos filhos

Comecei por contar como chegamos à República Checa na última publicação, hoje vou falar da procura de uma creche quando nos tornamos emigrantes.

Todas as mães têm a realista noção de que NINGUÉM cuida dos nossos filhos como nós, nem as avós. Porque só nós conhecemos os 268 tipos de sorriso dos nossos filhos, o sabor salgado da ranhoca, a quantidade de lágrimas falsas e verdadeiras que lhes caem dos olhos e a quantidade exacta de roupa que eles devem vestir para não sentir frio nem calor. Mas cedemos a estas certezas e abrimos o coração para confiar os nossos filhos a terceiros.
Acrescentemos a isto tudo que já sabemos e sentimos, o facto de nos tornarmos emigrantes e a nova creche não falar português.
Apetece chorar um bocadinho, não apetece?

O Gabriel entrou para o berçário em Portugal com 5 meses e sempre adorou a creche, excepto nos últimos 3 meses que lá andou (tinha cerca de 2 anos e meio) pois chorava de manhã dizendo que não queria ir.

Muito sinceramente, penso que o comportamento da creche mudou quando avisei que o meu filho iria sair porque íamos mudar de país. Deixaram de se preocupar com ele, de lhe dar a atenção que sempre tinham dado, de o mimar e preocupar com as necessidades dele. Não, não inventei isto da minha cabeça de mãe-galinha-coitadinho-do-meu-filhinho. Notei essa atitude até comigo, nas conversas que tinha com educadora e direcção. O meu menino, que sempre disseram que tanto gostavam, na verdade só gostavam porque tinham satisfações a dar a uns pais que pagavam bem para ter o filho ali. A partir do momento que esta família ia deixar de ser fonte de rendimento, foi-se o amor todo. Isto doeu-me muito porque senti-me enganada e manipulada e ainda por cima iria ter que procurar creche num país diferente.

O Gabriel deixou a creche no fim de Setembro, embora já não fosse todos os dias porque chorava e eu não o queria deixar a chorar desesperado, mas a partir daí tive que tratar de tudo com ele sempre comigo. A minha mãe e irmã mais nova vieram viver comigo em Abril desse ano por isso davam-me uma ajuda preciosa, nem que fosse para ficar com o meu filho enquanto eu ia aos correios despachar mais umas caixas para a Checa. Passou a dormir comigo na cama grande porque vendi tudo que pude antes de viajar e que era dele, como a cama de grades, por exemplo. Ficamos muito unidos, dependentes emocionalmente um do outro.

Imaginam a minha preocupação hiperbolizada ao ter que colocar o meu filho numa creche noutro país, sem falarem a língua dele e depois do choque de perceber que quando dizem que gostam muito do nosso filho na creche, se calhar não é bem assim.
Eu ia começar a trabalhar por isso não havia outra opção. Ser meticuloso como poderíamos ser em Portugal também não era opção, por causa dos horários, por causa de precisarmos de uma creche com sala de inglês, que fosse próxima pois não tínhamos carro e que não fosse um balúrdio. O resto era rezar para que tratassem bem o meu querido filho…

Os primeiros 2 meses foram muito difíceis, mesmo muito difíceis. A creche ficava a 10 minutos a pé de nossa casa, com duas salas, uma de checo e uma de inglês em que a professora era britânica mas sem jeito absolutamente nenhum para lidar com crianças, coisa que fui percebendo aos poucos. Mas, não fui só eu que percebi, a dona da creche também percebeu e despediu-a. A nova educadora, checa mas a falar inglês e espanhol, revelou-se um anjo caído dos céus.

Os primeiros dois meses foram o choque da língua, pois o meu filho sabia só algumas palavras soltas em inglês e nada mais, foi o choque de ficar sem a mãe 24h por dia, o choque de comer uma comida completamente diferente da portuguesa a que estava habituado, o choque de ser largado ali, e sentir-se completamente perdido porque ninguém o entendia. Em casa gritava, tinha momentos de testar a nossa paciência ao limite, chorava para dormir mais de 1h, coisa que nunca tinha acontecido, enfim, chorava ele e chorava eu, às escondidas dele, ainda por cima eu que estava a começar um trabalho novo bastante exigente e com os primeiros 3 meses de formação intensa e contínua, o que já de si é muito desgastante. A tudo isto acrescentamos o facto de estarmos num país completamente diferente, sem familiares, sem contactos praticamente nenhuns, principalmente para o meu menino, sem dinheiro para passear e arejar as ideias, enfim, vida de emigrante.

Quando a nova educadora chegou sabendo falar espanhol, foi como uma brisa fresca no dia do meu filho porque percebia a maior parte das coisas que ele pedia, ele deixou de se sentir ignorado o que também ajudou a acelerar o processo de aprendizagem do inglês. Com 4 meses de creche já percebia e falava o necessário para não se sentir perdido, de tal maneira correu bem que ao fim de 5 meses tiramos as fraldas que ainda usava e só teve fugas nos primeiros 3 dias. Isto porque a educadora que me afirmou ser a primeira criança que ia ajudar a desfraldar e por isso estava também insegura, mas foi cuidadosa e sempre atenta e por isso tudo foi tão rápido.

Agora, mais de um ano depois, ele já fala inglês quase como língua materna e já está a aprender checo, além de entender tudo e falar em português também. De notar que na sala dele há crianças de cerca de 10 nacionalidades diferentes.
Agora o meu filho pede-me para ir para a creche ao fim de semana. Como aconteceu isto? Aconteceu porque a creche tem investido imenso em inovação e atenção com as crianças, até porque é uma creche relativamente nova, com cerca de 3 anos apenas.

Mas queria explicar aqui as grandes diferenças entre as creches checas e as portuguesas, prós e contras.

Comecemos pelos contras.

Creches checas, públicas ou privadas, não têm berçários. What?! pensam vocês. Isto acontece porque a licença parental subsidiada vai até aos 3 anos. Sim, leram bem: 3 anos. A licença de maternidade começa obrigatoriamente entre 6 a 8 semanas antes da data prevista do parto e dura por 28 semanas na totalidade, e a seguir começa a licença parental que pode ir até aos 3 anos da criança. E dos 3 aos 4 anos da criança, a mãe pode escolher ficar numa licença sem vencimento nem subsídio mas tem o seu emprego assegurado ao fim desses 4 anos. Sim, isto é muito à frente nesta questão, no entanto é uma sociedade que vê as mulheres como mães mas os pais servem para prover comida e bens, pois não existe licença de paternidade, nem o dia do nascimento da criança. Claro que os patrões facilitam e os pais podem tirar o dia como férias e normalmente marcam dias de férias para a data prevista do parto, mas é um tiro no escuro.

Isto faz então com que as creches aceitem crianças a partir dos 2 anos, nem sequer há pessoas qualificadas para tomar conta de bebés. É algo que sei que estão a tentar mudar porque cada vez mais as mães querem trabalhar, nem que seja em part-time e precisam deixar os bebés em creches.

As creches públicas fecham diariamente às 16h, no Verão estão fechadas um mês ou mais e as privadas costumam fechar entre as 16h e as 18h, sendo que fechar às 18h é muito muito raro (por sorte, a do meu filho tem horário das 7h às 18h).

Visitei creches diferentes e algumas exigem que as crianças entrem para a creche já desfraldadas, o que também é uma idiotice e uma dor de cabeça para os pais porque cada criança tem o seu ritmo. Numa delas disseram-me ainda “se ele fizer xixi os amigos gozam com ele e pára logo de fazer nas calças”. WTF?!?!?!? Sim, bullying na creche, tão fixe, até porque ele nem ia perceber se lhe falassem em checo ou inglês. Muita linda esta creche, e cara, e chique. Ficaram com a chiqueza toda porque não mais lá voltamos!

Outra questão menos positiva é a alimentação. No entanto é uma questão cultural. As comidas são muito adocicadas, as sopas são caldos com poucos legumes, as crianças bebem chás ou sumos, doces e chocolates são coisas comuns de se dar, até a pediatra está cheia de doces para dar aos miúdos e os entreter (fico com um nervosooooooo!). O meu filho só gosta de ÁGUA. Dou graças todos os dias por isto.

Vamos aos prós, porque estes compensam largamente os contras.

E só posso falar das creches privadas porque são as que visitei e conheço, já que pelo horário de encerramento às 16h das creches públicas, e nós aqui sem uma avó que fosse buscar o meu filho à creche, tivemos que retirar imediatamente essa possibilidade de cima da mesa.

Poucas creches têm espaço exterior próprio, mas não faz falta. E vou explicar porquê. Os checos não são como os portugueses que ficam em casa ou enfiam-se no shopping ao mínimo sinal de chuva.

As crianças saem à rua com qualquer clima, chuva, sol, neve, vento, frio ou calor. Não há criança que não tenha uma capa de chuva, um par de galochas, um fato de neve, um par de botas de neve, bastantes gorros e luvas. Não há cá guarda-chuvas. Crianças e adultos equipam-se para não precisar deles. Embora se usem, claro, mas muito menos que em Portugal. A questão é comprar a roupa certa. A cidade onde vivemos, Brno (segunda maior cidade do país), é extremamente verde e com parques verdes e parques para crianças por todo o lado.

O que acontece frequentemente é que as crianças saem todos os dias de manhã quando estão na creche, excepto se choverem canivetes. Dentro da creche usam pouca roupa e chinelos ou pantufas (ninguém usa sapatos dentro de casa na checa, outra questão cultural), e como estamos a falar de um país com aquecimento generalizado em todos os edifícios, temos temperaturas de 20c a 25c no interior durante o ano inteiro. As crianças vestem-se para sair, fazem uma actividade ao ar livre, voltam e despem-se, almoçam, despem novamente para vestir o pijama e dormirem a sesta, acordam da sesta e vestem roupa novamente. Isto obriga a muito veste e despe que dá trabalho às educadoras e auxiliares mas é assim que as crianças aprendem a ser autónomas e a vestir e despir sozinhas mais rapidamente.

Outra coisa importante é que praticamente todas as creches têm opção das crianças frequentarem a creche em part-time: dia inteiro de 1 a 5 dias semanal, ou metade do dia de 1 a 5 dias semanal, são várias as opções oferecidas. Mesmo mães que ainda não estejam a trabalhar podem ter um dia “out” por semana e deixar os filhotes na creche.

No caso específico da do meu filho, há um contacto diário sobre as actividades da creche, através do facebook e em grupo completamente fechado, a educadora partilha fotos e mensagens, eventos, tudo sobre a sala e os meninos. Eles brincam muito, que é o que eu mais gosto, aprendem enquanto brincam e depois há imensas actividades extra, umas são pagas quando é preciso pagar entrada, como ir ao Zoo ou ao Teatro, mas a maioria são grátis.
Actividades que a creche tem proporcionado:

– aulas de cerâmica (são pagas porque não são na creche mas só vai quem quer)

– aulas de natação (são pagas porque não são na creche mas só vai quem quer)

– aula de ioga ocasional

– passeios às sextas-feiras durante o dia inteiro a sítios diferentes, inclusive a casas de repouso com idosos para as crianças interagirem com “avós”. Crianças e idosos usufruem deste encontro, acho deliciosa esta ideia que tiveram.

– um polícia que foi explicar as regras de segurança

– um músico de instrumentos do mundo, africanos e outros, que foi dar a conhecer às crianças os diferentes sons

– aulas de flauta semanais

– aula específica de ingles (falado)

– aula específica de checo (falado)

– noites da festa do pijama em que os meninos que quiserem podem ficar a dormir na creche (babysitting grátis yay!)

– passeio de 3 dias para as crianças que quiserem, prevista para Setembro de 2015 (viagem e dormida são pagas à parte)

– idas ao teatro (paga-se entrada)

– ida ao Zoo (paga-se a entrada)

Quero referir outra coisa importante, é que a rede de transportes públicos é excelente e é grátis para crianças até aos 6 anos. Eléctrico, autocarro ou comboio, grátis, de 5 em 5 minutos e sem atrasos. Ah Portugal… como era bom os transportes aí serem como aqui, mas esta história fica para outro dia.

Uma coisa que é muito comum aqui é a comida vir directamente de restaurantes que se especializam em refeições para crianças. Penso que grande parte das creches não tem cozinheira própria, preparam apenas os pequenos-almoços e lanches, mas comida de fogão vem do restaurante.

Todos os dias é feita a limpeza e na entrada há espaço específico para cada criança ter mudas de roupa, roupa de neve, galochas, impermeável da chuva, gorro, cachecol, boné, etc etc. Uma espécie de armário sem porta com prateleiras para as crianças terem lá tudo o que precisam. Estão identificados com o nome e com um adesivo em forma de animal e esse adesivo é usado em tudo na creche para identificar as coisas daquela criança. No caso do meu filho é um ursinho sorridente que também está na caneca dele beber água e no suporte do WC onde tem a toalha individual e um saco com artigos de higiene dentária. Toalhas, lençóis e louças são fornecidos pela creche.

Lembro de ver crianças de uma creche em Coimbra a saírem e a passarem frequentemente na frente do meu local de trabalho e ouvir comentários de pessoas a reclamarem que não achavam nada bem as crianças saírem, ainda ficavam doentes, ainda caíam e se magoavam, coitadinhos que se cansam tanto.

Sempre achei que fazia bem sair, conhecer outras coisas, aprender a andar na rua, atravessar a estrada em segurança. Posso garantir que aqui na checa as crianças não adoecem nem mais nem menos que em Portugal. Aliás, talvez os bebés até adoeçam menos porque não estão no berçário a absorver todos os vírus e mais alguns quando ainda são tão pequeninos e frágeis. Não tenho dados estatísticos, só observação directa.

Quando eu estava em Portugal tinha muito mais medo de coisas que agora me parecem naturais e normais porque é a forma de as fazer aqui e vejo os benefícios todos os dias.

A promoção da autonomia, o contacto com a natureza, os passeios que ficam gravados na memória dos nossos filhos como tempos maravilhosos da sua infância, não há dinheiro que pague isso. Se um dia voltasse a Portugal, ia ser muito difícil para mim voltar ao esquema típico “fechado” das creches portuguesas.

Penso que algumas já fazem este tipo de actividades exteriores e interiores, de uma forma natural e rotineira, mas a mentalidade dos pais portugueses tem que mudar também, não ter medo de expor as crianças ao clima, à sociedade, ao meio ambiente.

O meu filho está feliz. Embora me diga “mamã, eu gosto mais da tua comida”, está feliz. O que mais posso querer?:)

~~~~~~

Marília Campos

 

Partilha o que te vai na alma...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s