Três vidas nómadas

Quando temos muito para dizer e as palavras atropelam-se, ficamos com o cursor a piscar em branco na esperança que o início nos chegue de uma forma mais suave e gentil do que a história que queremos contar: emigrar no fio da navalha.

Mas a emigração, que tanto se fala hoje, tem tantas vertentes quantas pessoas que saíram do seu país. A minha história tem uma perspectiva familiar porque quando saí de Portugal era esposa e já era mãe de um menino de quase 3 anos.

Comecemos pelo princípio. Há milhões de anos atrás surgiu a vida no planeta Terra. E começou a saga de emigração. A grande maioria dos seres vivos emigra porque precisa, não porque quer. É a lei da natureza: adaptas-te ou morres.

Eu, filha, irmã, esposa e mãe, nesta ordem cronológica pela qual fui assumindo cada um dos papéis nomeados, tinha estas 4 vertentes em mim a gritar por uma solução quando todas pareciam esgotadas em Portugal há 2 anos atrás. Reconheço que emigrar não é para todos. É preciso ter um sentido de desapego aos bens materiais e às pessoas que amamos de uma forma especial. Não sou filha de emigrantes nem tinha grandes conhecimentos sobre emigração a não ser pela perspectiva do meu marido que tem dupla nacionalidade, portuguesa e brasileira, tem DNA dos dois países e sempre viveu entre um país e o outro ficando a balança meio-meio. Mas fui nómada no meu país, primeiro por causa dos estudos e depois porque fui viver para Coimbra após o casamento deixando o meu amado Porto para trás. E é preciso ser desapegado e/ou querer fugir de algo. Tenho um pouco dos dois em mim.

Nunca fui muito viajada fora do país, quase não conhecia outras realidades ao vivo mas faz parte da minha personalidade dar passos em frente para o desconhecido. Não sei se sou destemida, acho que é apenas o meu desejo incessável de conhecer coisas novas, de me renovar constantemente, de não ter medo de apostar e rir de mim mesma se perco a aposta.

Por isso, com um apartamento para pagar ao banco, desempregada e o marido também, um filho de 2 anos, não podíamos mais depender de um país que economicamente entrava em colapso com ministros a dizerem para abandonarmos o barco e a empurrar-nos para fora do nosso amado cantinho à beira mar plantado e empregadores que usam a crise para explorar de forma inescrupulosa o desespero de cidadãos que amam o seu país e já quase não têm o que comer.

O meu marido há muito procurava opções no estrangeiro, ambos falamos e escrevemos bem inglês, e assim que surgiu uma oportunidade séria de trabalho não pensamos duas vezes porque o subsídio de desemprego estava a terminar, porque já nos sentíamos mais pedintes e envergonhados do que seres humanos normais.

República Checa, Brno. Ele começaria a trabalhar a 1 de Agosto de 2013. Eu e nosso filho ficaríamos por 3 ou 4 meses mais para organizar as coisas e para ele ter a certeza que era um trabalho com futuro e um país onde poderíamos recomeçar, com condições para vivermos em família e com trabalho.

Houve uma despedida dolorosa, um “até já” que me agoniava, um medo de “e se… tudo corre mal?”. Depois de sermos pais a coisa assusta mais. Não nos podemos dar ao luxo de falhar. Tivemos alguns apoios familiares que foram fundamentais e sem eles não teríamos conseguido sequer sair de Portugal e para sempre estaremos gratos por isso.

Sim, emigrar custa muito dinheiro, não sabiam? É preciso ter dinheiro para fazer dinheiro. É preciso pagar viagens, mudanças de bens, alugar uma casa, é preciso ter quando não se tem e por isso é que estamos a tentar a sorte noutro país: para deixarmos de ser e nos sentir miseráveis.

O emprego do marido corria bem e ao fim de três meses estava com contrato assegurado. Compramos os bilhetes de avião para mim e para o nosso filho e mais um frio na barriga. Isto está mesmo a acontecer, pensava eu. Dia 16 de Novembro, cerca das 9h da manhã. Dia D.

Foram quatro meses separados do meu marido e custou muito. Só quem passa por isso é que entende. Principalmente numa situação de incerteza, de mudança tão drástica. E ele foi com mala e documentos e pronto. Eu é que fiquei com todas as burocracias para tratar. Antes de ele viajar, fomos à conservatória escrever uma procuração para eu poder agir e assinar o que fosse preciso sem ele e lá tratei de tudo o que pude.

Começar noutro país dá trabalho, muito. Mas estávamos dispostos a isso para termos uma vida digna novamente. Era só isso que queríamos: trabalho, pagar as nossas contas e ver crescer o nosso filho num ambiente saudável e feliz.

Marília

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