A escolha da Creche/Jardim de Infância

Muitas mães e pais perguntam-se sobre o que observar numa creche e jardim de infância para fazer a melhor escolha possível. Digo possível, já que há sempre coisas boas e coisas más. A minha mãe repete: “Não há sítio perfeitos”. Então, o ideal é escolher um local que partilhe os mesmos valores e preocupações dos pais.

O meu filho entrou para a creche em Setembro, depois de quase 2 anos a partilhar os dias (e as noites) com a mãe. O que pesou mais na nossa escolha foi, precisamente, sentir o afecto que lhe iriam dar, não só durante a transição como também depois de estar adaptado. O tempo foi passando e a experiência demonstrou que a 1ª impressão nem sempre é a realidade e trouxe outros requisitos. Mesmo antes do ano lectivo terminar, decidimos que estava na altura de procurar uma alternativa melhor.

Acerca deste tema há um post muito bom, escrito pela Marta Nabais do OvO, com um título altamente sugestivo: Rir para não chorar, a escolha do Jardim de Infância.

Eu resolvi mandar mais uns bitaites para baralhar a coisa.

Espaço/Ambiente: Este é um dos factores fundamentais. Procuramos salas arejadas mas, sobretudo, com zona de exterior ampla, onde possam correr, brincar, mexer na terra sem problemas. A natureza é importante, fugimos de recreios com muito cimento ou materiais artificiais. Por outro lado, aprendi que também é importante ver se não há areia e pó a mais, sob pena de sairmos completamente encardidos (por fora e por dentro).

Em termos de segurança, perceber se queremos que o nosso filho esteja seguro ou se não nos importamos que ande empoleirado nos muros e portão de saída. E, como diz a Marta, pensar como nos sentiríamos ali durante 1 dia inteiro.

Os pais como parte integrante da creche/JI: Perceber se somos bem-vindos ou se nos olham com estranheza fora do horário de entregar/levantar a criança. Saber como é o processo de transição, se somos bem-vindos a fazê-lo com calma ou se não têm sensibilidade e acham que deve ser tão rápido como tirar um penso de uma ferida. Perguntar se existem actividades que integrem os pais. Melhor do que isso, perceber se existe uma comunidade de pais, onde se possa conviver e conversar.

Há pais que procuram creches para se sentirem especiais e há creches que fazem qualquer pai sentir-se especial. Há creches que nem uma coisa nem outra. Cuidado com as comunidades de pais que são muito fechadas e têm ideias muito fixas, mesmo apregoando valores diferentes, pois podem tornar-se uma verdadeira dor de cabeça.

Higiene: O local é limpo ou cheira a mofo e está atravancado de coisas? Há brinquedos com ferrugem? Existe um trocador de fraldas? Há chuveiro? O WC é arejado? Onde são colocadas as fraldas? As crianças têm acesso ao caixote das fraldas? Como é feito o desfralde? É feita higiene dos dentes? Quando vão buscar os vossos filhos, estão com a fralda limpa? Têm ranho na cara? Há creches que têm WCs bastante arejados e que fornecem toalhitas, há creches que nem espaço próprio para trocar fraldas têm.

A minha mãe (professora) dizia-me que ao final do dia as educadoras preparam sempre os meninos para os pais verem que eles estão bem. Mas também há locais em que os pais chegam e as crianças têm cocó na fralda, misturas de ranho a escorrer e ranho seco na cara e roupa bastante suja. Há quem não se importe com isto, o importante é perceberem o que sentem quando vêm o vosso filho num mix de fralda suja, ranho e pó.

Convívio com as outras crianças: Há creches em que as salas obedecem estritamente a idades, outras que determinam quem lá está a partir do desenvolvimento motor e do uso da fralda. Há creches em que juntam crianças de várias idades. Nisto, sou a favor do convívio com mais novos e mais velhos. Perceber como é feita a gestão de conflitos entre as crianças. O adulto abstém-se e acha que as crianças se devem desenvencilhar sozinhas? Só intervém quando jorrar sangue? Ou intervém de imediato? O que é feito quando há uma criança que morde ou bate sistematicamente nas outras? Considera-se normal? Fala-se com os pais de uns e outros ou não se dá a conhecer a situação?

Passeios: Fazem passeios de forma periódica ou pontualmente? Vão na carrinha do JI ou são carrinhas alugadas? Os pais são bem-vindos nos passeios? Quantas crianças por adulto estão nos passeios? Vão precisar de pessoas externas à creche para estar com as crianças? Brincam livremente ou estão restritos?

Há creches que informam os pais sobre todos os detalhes dos passeios. Há outras que informam apenas o local. Há creches em que é normal saírem 40 crianças a correrem livremente pelo campo, serem acompanhadas pelos motoristas de carrinhas alugadas e fazerem almoços numa fogueira improvisada e sestas ao ar livre. Há pais que se sentem seguros nestas situações, há outros que não. Há pais que falam com as creches para saber se é possível adaptar, face aos seus receios. Há creches que têm isso em consideração, há outras que brincam com o “pedófilo da Serra de Sintra”.

Acolhimento: Existem horários restritos ou flexíveis? Qual a vantagem de cada um deles? A educadora respeita o tempo e os sentimentos da criança? Ou acha que ela é chorona? Responsabiliza os pais pelo momento da separação ou tenta encontrar alternativas suaves? Tenta evitar fazer o acolhimento para não ser a má da fita ou é uma pessoa compreensiva, que ajuda a criança e os pais? É sempre a mesma pessoa a fazer o acolhimento ou é quem estiver disponível? Como reagem quando fazem alguma sugestão?

Alimentação: Podem levar alimentação de casa ou mostram desconforto com a sugestão? Como é a política em termos de doces? Há JI que não permitem nada de açúcar branco e outros em que permitem tudo. Se uma criança não comer, tenta-se equilibrar a oferta de doces que os pais trazem nas festas ou optam por ostracizar as crianças que não comem, enquanto as outras se deliciam? Dizem às crianças que não podem comer porque lhes faz mal ou porque a mãe não deixa? Durante as refeições, são rígidas quanto a comerem com as mãos? Ensinam a serem autónomos e a comerem com talheres? Há creches em que a refeição está incluída mas existe abertura para levar comida de casa. Há creches que pedem para a comida ir quente, dentro de um termo, e não lavam a loiça, há creches que aquecem a comida e devolvem a loiça lavada.

Animais: Há animais no JI? Se não há, alguma vez houve? Planeiam ter animais? Os animais estão (ou vão estar) soltos? Há locais sem animais, outros com peixes e tartarugas, há quem tenha coelhos e galinhas. Há creches em que os animais são cuidados, outras creches onde há crianças a dar pontapés em coelhos e as galinhas estão presas em capoeiras. Há creches com cães, a maior parte delas com regras definidas. Há creches com cães sempre soltos, mesmo que crianças pequenas e educadoras tenham receio deles, com crianças mais crescidas a cavalgar neles, que até fazem chichi na cozinha (true story!). Há creches em que é quase necessária uma educadora para tomar conta do cão. E há creches em que os animais são mais importantes que as próprias crianças e pais que estão desconfortáveis com um cão sempre solto (preocupados com o bem-estar de todos, até do próprio cão!). Como é que se sentem com esta situação? Acham positivo ou gostavam que fosse diferente?

Crianças doentes: É normal estarem crianças doentes durante o dia? Há creches onde as educadoras são também babysitters que fazem o transportes antes e/ou depois do horário de expediente, outros casos em que há crianças que são familiares do pessoal. As crianças doentes ficam no sítio isolado até alguém chegar (seja para descansarem, seja para proteger as outras crianças)? Há locais em que incentivam as crianças saudáveis a darem mimo às crianças doentes, mesmo quando há surtos de fortes doenças virais. Vêem isso como positivo ou preferem que estejam mais resguardadas?

Equipa e Direcção: Os adultos são afectuosos ou parece que estão num quartel? Os adultos estão presentes ou deixam crianças sozinhas? Há creches em que é normal crianças com 2/3 anos estarem sozinhas no quintal, outras em que nunca estão sozinhas. Há creches mais familiares e outras com estruturas maiores. Há quanto tempo estão as educadoras na instituição? Demasiada rotatividade pode ser sinal de instabilidade na instituição. A equipa tem contratos condignos ou há educadoras de formação a ganharem como auxiliares, ou pior, a fazer voluntariado?  Quantas auxiliares estão na creche? Sentem que têm disponibilidade para cuidar das crianças ou estão sobrecarregadas com tarefas de limpeza da instituição? A directora é de fácil acesso? É muito rígida? Muito liberal? Nas creches familiares pode ser importante perceber se não existe uma estrutura autocrática. As piores são as de espírito Chop Suey de Família Feliz, ou o síndrome da Coreia do Norte, como eu gosto de lhes chamar.

É perigoso ficar-se refém de decisões unilaterais, sobretudo se são tomadas a meio do ano e não são do agrado de todos. Há quem confie cegamente nas direcções, há quem as questione e sugira melhorias. Como é que a direcção reage? Quais são os valores da equipa? Fugir a 7 pés de pessoas rígidas, de ideias fixas, que gostam de espalhar boatos e não levam a sério os pedidos dos pais.

Escolham uma escola que vos dê paz de espírito, e não uma que vos sugue as energias. Ter artigos numa revista ou jornal não é garantia de nada… muito pelo contrário.

Sobretudo, é importante pensar no que nós, como pais, e também no que os nossos filhos precisam. Gostamos de horários flexíveis, desordem/liberdade? Prezamos as regras e a tranquilidade? Gostamos de certificações de higiene na cozinha ou não nos importamos que comam (n)a terra?

Antes de mudar, quantas creches visitámos? Apenas 1. E não levámos nenhuma checklist, apenas nos preocupámos em sentir o ambiente. E não me refiro a fugir de uma localidade onde o Inverno resolve passar as férias de Verão para outra localidade onde está (quase) sempre sol. Encontrámos uma creche mais equilibrada e, ainda por cima, mais barata! Até me senti um bocado totó… Para melhor muda-se sempre.

PS: Julgavam que este é um post para ajudar? Nahhh, era mesmo para baralhar e espalhar o pânico! ;-)


cristinacardig

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