Bullying: dois pesos e duas medidas

Ok. Chega.

Vamos falar do vídeo que explodiu nas redes sociais esta semana em Portugal com imagens chocantes de um grupo de adolescentes ao murro e à bofetada a um outro adolescente indefeso e prostrado. Todos nos indignamos com o que vimos, a mim deu-me náuseas e não olhei para o vídeo, virei o rosto e ouvi duas estaladas fortes e foi o bastante para não querer ver-ouvir mais.

Em primeiro lugar o meu sincero apoio solidário vai para esse jovem que foi vítima das agressões físicas, verbais e psicológicas de um grupo de adolescentes que acham que são fixes ao espancar e humilhar um colega. Vocês, seus “bullies” violentos, deixaram-me com vontade de vomitar de tão estupidamente impotente eu me senti ao ouvir e saber o que fizeram. Espero que a justiça vá até ao fim para punir os vossos actos e dissuadir outros de vos imitarem.

Mas não posso deixar de condenar todo o circo e caça às bruxas imediatamente montado contra os abusadores. Pessoas famosas a escreverem que os garotos são psicopatas e a incitar ao ódio contra miúdos que embora sem desculpa alguma para o que fizeram, têm direito a defesa e a não ser julgados na praça pública e serem eles mesmos vítimas de agressões verbais e psicológicas com constantes ameaças à sua integridade física.

E, pior ainda, ameaçar e insultar as suas famílias e amigos sem sabermos quais os contextos de vida de cada um deles ou porque motivo, se é que existe, eles fizeram o que fizeram. Curiosamente, não vejo revoltas deste tipo contra pais que espancam os seus filhos ou maridos que espancam e matam as mulheres. Deixemo-nos de fazer de conta que somos pessoas de bem ao mostrar que somos capazes de insultar um mau adolescente. Esse comportamento macabro que o público está a ter, mostra que em determinadas circunstâncias tudo pode ser permitido.

Como educar crianças e jovens com dois pesos e duas medidas? Qual a mensagem que estamos a passar se somos contra a violência, mas só se nos convém? Ou somos contra a violência, ou não somos. Ou somos contra o bullying ou não somos. O que é que o público está a fazer senão exactamente o mesmo que condena? Quanto bullying está a ser feito a cada segundo contra este grupo de adolescentes e as suas famílias?

“Eles não merecem piedade nem paninhos quentes”, dirão muitos. Merecem justiça, merecem ser tratados com respeito, merecem ser tratados como pessoas. São PESSOAS. São pais que amam os filhos mesmo que cometam as piores atrocidades. Raios, eu sou mãe e nunca vou parar de amar os meus filhos, seja o que for que façam. Não implica que lhes passe a mão na cabeça a toda a hora, implica que os ame incondicionalmente e que os defenda de pessoas raivosas e cheias de ódio no coração se um dia eles se desviarem no seu caminho e fizerem algo verdadeiramente reprovável. Quão precipitados somos em dizer que a culpa é dos pais. Será?

Muito rapidamente nos esquecemos da nossa adolescência e que todos nós contrariamos e mentimos e escondemos coisas dos nossos pais. Muito rapidamente nos esquecemos que batíamos o pé porque “já sou crescido e quero ser eu a decidir” sobre a minha roupa, os meus amigos, os amores, os meus programas de televisão preferidos, as bebidas, o tabaco, a escola, a comida… Temos memória muito curta e língua com gatilho muito leve. Tentemos ser tolerantes e vamos respeitar e agir em conformidade com o que apregoamos: vamos morder a língua, vamos amarrar os dedos que fumegam para escrever atrocidades gratuitamente e ser responsáveis naquilo que falamos e escrevemos.

E se for o teu filho? O teu irmão? O teu primo? O teu melhor amigo? O teu vizinho?

Já pensaste nisso?

Então pensa.

Marília Campos

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