Fazer o tempo esticar, por Angélica Luis

Quando casei e vim para o Porto fiz uma escolha, um pouco às cegas – por muito que achemos que estamos conscientes do que fazemos: casar e ficar a 350km da minha família. Os meus sogros já tinham uma idade avançada, e quando os filhos viessem estaríamos por nossa conta. No reino da fantasia tudo conseguimos, e tudo parece fácil.

Depressa me apercebi que muitas mães com filhos menores de 12 anos pediam jornada contínua, ou seja em vez das então 7 horas de trabalho mais uma para almoço optavam por 6 horas de trabalho com uma pausa não superior a 30m.

Durante a gravidez fui-me apercebendo da imensidão que tinha de enfrentar, mãe de 1ª viagem, o meu apoio a 350km, dei por mim a redefinir tudo. A licença de parentalidade seria pelo máximo possível, sem cortes drásticos, e iria usufruir da licença de amamentação e posteriormente tentaria ainda a jornada contínua.

Regressei ao trabalho a 3 dias da minha filha completar os 5 meses, e apesar de já estar a frequentar a creche o pai estava a gozar os seus 30 dias de licença. Optámos pelos 150+30 dias e em boa hora o fizemos pois foi uma bênção. Pouco tempo depois de entrar no berçário iniciou uma série de viroses e se não fosse o pai a ficar com ela o meu regresso ao trabalho (ao fim de 7 meses de gravidez de risco e 5 de licença) teria sido ainda mais complicado. Até completar um ano usufrui da licença de amamentação/aleitamento, apesar de apenas a ter amamentado até aos 4 meses.

Antes de terminar essa licença fiz o pedido de jornada contínua, que acabaria por passar das 6 horas contínuas para 7 quando a administração pública passou para o regime das 40 horas.

Com o acréscimo desta hora de trabalho muita gente passou a ter problemas, por um lado menos tempo para os filhos, por outro lado terem de pagar prolongamentos ou actividades em ATL´s por passarem a sair mais tarde. E foi aí que os pedidos de jornada contínua dispararam e vieram as quotas. Quotas das quais eu estaria de fora. Tive uma luzinha quando me dei conta que o meu colega que tem guarda-conjunta apenas iria usufruir do horário em semanas alternadas, e requeri as restantes semanas e foi-me autorizado.

Vivo assim com dois horários. Chamo-lhes a semana sim e semana não. Semana com e sem jornada.

O que me obriga a entrar antes das 9, mas que me permite sair às 16. Para que me serve este horário? Eis coisas que fiz recentemente:: – ir ao cabeleireiro, ir busca-la, ir ao parque e chegar a casa antes das 19 – passar a ferro sem a ter por perto aos pulos – adiantar as sopas para a semana “não” – ir às compras sem a ter no carrinho agarrada às prateleiras – brincar com ela (na casa ou no parque)

O tempo que tenho a mais é para a minha filha, embora possa não ser passado com ela. Não tenho empregada, não tenho grandes ajudas, por isso tenho de ser eu e o “meu sócio” para tudo.

Se me organizar, se sentir que controlo o tempo que tenho estou mais disponível para as pequenas coisas. Um destes dias saí mais cedo, fui às compras e busca-la. Estava sol, deixei o carro um bocadinho mais longe e fomos a pé, vimos as magnólias, apanhei-lhe uma. Cheguei a casa fiz um bolo e ela “desenhou” a filor da árvore. Que tem isto de extraordinário? Nada. Mas por vezes temos de esperar pelo fim-de-semana, quando temos outras mil tarefas para fazer, para conseguirmos parar um pouco. Usufruir de tempo para estarmos juntos.

Fala-se tanto de incentivos à natalidade, e parece que as pessoas só pensam em subsídios. Para mim os melhores incentivos são: uma boa rede de apoio para nos deixar estar descansados a trabalhar e a possibilidade de flexibilidade de horários para estarmos com os filhos e a tratar das coisas deles.

Conseguirmos ser mães, mulheres e profissionais é sempre um duro equilíbrio.

Recentemente fui avaliada. Tenho horário reduzido desde que vim para este trabalho, fui avaliada com mais colegas que fazem horário normal. Nunca quis adaptar os meus objectivos ao tempo que estou ao serviço. Arrisquei. Arrisquei e consegui cumprir todos os objectivos e superar alguns. Apesar de sermos 6 e só dois terem tido desempenho considerado de relevante uma dessas notas foi minha. Sim, nem sempre saio ao bater das 16, da mesma forma que não entro ao toque das 9, e sim também levo trabalho quando é preciso. Mas a satisfação de conseguir chegar onde os outros chegam ninguém me tira.

Nem a satisfação de ver a minha filha feliz por brincar com a mãe, ou ajudar a fazer um bolo, ou simplesmente estarmos à frente da TV a ver pela enésima vez a doutora brinquedos. Acima de tudo sinto que estou presente. Mas passa tudo tão rápido que sinto que precisava de mais. Sinto particularmente na semana “não”. Semana em que devia sair às 18, nem sempre consigo. Por vezes ligo ao pai que também está preso no trânsito para ver quem consegue chegar antes das 19h30m, antes que a creche feche.

Pais mais tranquilos, com a vida mais organizada são mais disponíveis fisicamente e acima de tudo psicologicamente, e acredito que tornem as crianças mais felizes.

(Texto escrito pela Angélica Luís, mãe da Helena)

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