Os pais precisam de férias dos filhos… por Bárbara Yu Belo

…e os filhos precisam que os deixem em paz!

Lembro-me de ser criança e passar os três meses de férias de Verão numa aldeia escondida no canto do mapa. Longe dos meus pais e quando a internet e os telemóveis eram ainda uma miragem. O único telefone era o do café que ficava na praça central e bastava para a maioria das casas da aldeia. Os meus dias eram passados numa “liberdade condicionada” maravilhosa! Ali corria, brincava até não poder mais, comia amoras acabadas de colher até a minha barriga não poder mais, almoçava na casa mais perto de onde estava e regressava a casa dos avós dos meus primos quando o sol se punha atrás dos montes. Morria de saudades dos meus pais, é certo. Mas sabia que, mais dia menos dia, eles haviam de aparecer para me buscar. E então, eu e a minha irmã chorávamos baba e ranho para ficarmos mais uns dias.

Apesar da difusão de imagens, sons e cheiros que retenho desses tempos, a sensação que se destaca é a de liberdade. Dos dias passarem sem relógios a contar horas e minutos. De poder ficar horas a perseguir um gafanhoto. De aprender a distinguir um gafanhoto de um louva-a-deus. E de saber porque um louva-a-deus se chama a assim. De não fazer nada, o que afinal, era fazer muito. (Recordo-me também de ter arrastado um rapaz, de olhos azuis e ranho a escorrer do nariz, até à igreja da aldeia para que o padre nos casasse. Por mais argumentos que o padre utilizava e por mais alto que o rapaz chorava, eu achava que fazia todo o sentido casar com sete anos, no meio do nada, com um ranhoso de olhos azuis.). Tenho saudades desses tempos principalmente porque gostaria que os meus filhos os pudessem ter vivido também.

O ritmo louco em que vivemos hoje em dia é assunto mais do que falado, mas não deixa de ser uma realidade sufocante. O acesso contínuo a notícias trágicas, bombardeadas de todos os cantos, é claustrofóbico. A pressão para que sejamos os melhores pais dos melhores filhos é tão real quanto ridícula. As consequências estão à vista. E eu ainda me espanto como, apesar de tudo, ainda consigo encontrar tantas crianças felizes à minha volta.

Os meus filhos são crianças felizes. Apesar dos meus berros quando cansaço me tolda a mente, apesar do ritmo maluco que lhes imponho no dia a dia, apesar de estarem constantemente sob vigilância apertada.

E eu sou feliz. Mesmo mal tendo tempo para respirar. Apesar de carregar diariamente sacos de compras pesadíssimas porque esta malta come cada vez mais, apesar de fazer uma ginástica acrobática para conciliar os horários e a conta bancária. Mesmo com esta minha mania de querer ser melhor mãe todos os dias e da constante auto-recriminação quando percebo que não o consigo ser. (quando é que vou deixar de ser burra?)

Chegámos anteontem de quatro dias de férias fora do país. Quatro dias intensos, onde a diversão e o deslumbramento se misturaram com o cansaço e o mau-humor típico de que não dorme as horas do costume. Coordenar quatro crianças e seis malas pelas ruas e metro de Paris é uma aventura. Principalmente se uma delas tiver três anos e as outras três forem do mais distraído que há. Mesmo assim foi muito bom. Para além das seis malas trouxemos a alma cheia de recordações para a vida.

Mas a verdade é que, uma vez chegados a casa, eu já não os podia ver. Nem ouvir.

Hoje foram de comboio para uma semana de diversão com os tios e primos. Enquanto desfazia as malas de um Paris gélido e as refazia para uma Lisboa que promete temperaturas de verão, senti um aperto no peito, confesso. Não porque temo que quer que seja, mas porque sei que, como mãe-galinha-quase-mãe-helicóptero, deixar os filhos sair debaixo da asa é uma sensação de desconforto.

Mas… sair do emprego sem a urgência de ir a correr para casa, sem compras ou jantar para fazer, banhos para dar ou birras para gerir, é uma sensação óptima. Poder sentar-me numa esplanada ler um livro, aquecida por um sol maravilhoso, sem sentir remorsos é maravilhoso. E sabê-los bem entregues, felizes em “liberdade condicional”… então é o paraíso!

Escrito por Bárbara Yu Belo

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