Com ou sem maminhas, eu (não) sou das boazinhas

Não há nada que toque mais o coração de uma mãe que um vídeo que apele ao seu sentido maternal. Bebés fofinhos, que nos põem as hormonas aos saltos, relações conjugais, auto-imagem, enfim, tudo e mais alguma coisa sobre a forma como nos vemos e os outros nos vêm.

Marketing, na maioria das vezes.

Nos últimos dias, este vídeo tem aparecido várias vezes no meu feed de notícias. Uma enfermeira, conselheira de aleitamento materno, dizia “mesmo tendo o patrocínio de um leite, este vídeo está muito bom”.

Oh lá! Uma enfermeira a partilhar um vídeo de fórmula, tenho que ver isto!, pensei eu.

A agressividade inicial do vídeo não me agradou. Mas, sob a perspectiva de marketing, este vídeo está genial. Muitas das pessoas que o partilham nem percebem que é um anúncio a leite adaptado. Basicamente, é um vídeo divertido, em que a moral é: As nossas diferenças não são importantes porque, sejam quais forem as nossas escolhas, no fundo todos queremos o bem dos nossos filhos.

As mães a tempo inteiro, as mães trabalhadoras, as mães que levam os filhos no carrinho, as mães que carregam os filhos no sling, as mães que usam fraldas reutilizáveis e, claro, as mães que dão leite adaptado e as que amamentam. É um vídeo de estereótipos. Mas que pretende dizer que, no fundo, não há certo ou errado, apenas escolhas.

Porque é preocupante? As nazis, as evangelistas ou talibãs da amamentação, são sempre vistas como as mães que julgam. E, claro, ninguém quer ser a mãe sisuda que faz julgamentos. Todas queremos ser as mães fofinhas, divertidas e tontinhas q.b., para sermos aceites.

O vídeo está genial porque sugere este silenciamento, curiosamente numa altura em que se fala tanto em liberdade de expressão. Normaliza o uso de leite adaptado. E estimula as guerras entre mães de uma forma perversa e subversiva. Ai, é? Não achaste piada? Pois, eu sabia que tu eras dessas! *dedo apontado*

Quem lucra com isto? As empresas de leite adaptado. Estamos a falar de um mercado global de 50 biliões de dólares (Zenith International). Hun, teoria da conspiração, será mesmo? Ou antes um negócio predatório?

Seria diferente se, legalmente, este fosse um mercado obrigatoriamente não lucrativo? Sem campanhas de marketing? Onde os leites vendidos seriam os considerados melhores para os bebés, através de investigação isenta? E recomendados por médicos cuja opinião seria baseada em evidências científicas e não em opiniões, crenças e mitos?

Gostava mesmo de ver isto.

Eu estive dos dois lados. Das mães que amamentam e das mães que deram leite adaptado. E senti-me julgada e incompreendida pelo resto do mundo, apenas se safou o pai da minha criança. Foi por ter sentido tantas dificuldades, em ambos os lados, que acredito profundamente que precisamos de mais apoio.

As mulheres que desejam amamentar precisam de apoio especializado na maior parte dos casos. As que não desejam e estão informadas, que sigam a sua vida, tranquilas com a decisão. As que desejam amamentar por 6 meses não são menos mães que as que amamentam por 2 anos. Há quem defenda o desmame natural da criança, há quem defenda o desmame gentil, há quem ache que as mães têm todo o direito de colocar um ponto final assim que entenderem.

E muita tinta (bits e bytes nem se fala) se gasta com este assunto. Eu cá sou a favor destas guerras entre mães. Adoro uma boa mommy war e nem precisa de ser na lama. E porquê? Porque se fala no assunto!

E sim, vamos falar pela milionésima vez nos benefícios da amamentação, para o bebé, para a mãe, no bom que é para muitas estar naquele estado fusional de amor. Mas vamos falar também das dores, fissuras e mastites. Vamos falar de histórias de sucesso e de insucesso. Vamos falar no sentimento de falhanço por não conseguir amamentar. Porque a culpa não é da sociedade que nos rodeia, das nossas expectativas, ou de pretender ser a mãe perfeita. O cansaço, a frustração, a falta de apoio, a falta de conhecimentos de muitos profissionais de saúde… as hormonas… estamos sensíveis demais.

E precisamos de apoio, sim. E não só apoio dos profissionais de saúde que estão na linha da frente.

Precisamos de uma sociedade sem moralismos bacocos, só porque amamentar em público incomoda, mas mostrar as (duas) maminhas para vender coisas já nãoPrecisamos de uma sociedade onde não se pense que uma mãe que está de licença esteve de férias, uma sociedade onde os avós, com a reforma cada vez mais distante, tenham tempo para cuidar dos netos. Precisamos de uma sociedade que se vire para a família, para as crianças, para as mães, para os pais, para os avós. Com licenças de parentalidade alargadas, políticas de emprego que promovam a flexibilidade de horário e o trabalho a partir de casa, benefícios fiscais, redução de horário para todas as mães ou pais com crianças até 2 ou 3 anos (e não apenas as que amamentam).

Precisamos, sobretudo, de mais respeito pelas mães, pelas famílias. Esta lógica de trabalho, trabalho, trabalho, lucro, lucro, lucro, não serve mais.

One thought on “Com ou sem maminhas, eu (não) sou das boazinhas

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