Amor intenso – Relato de Parto

Então, vou partilhar aqui a minha aventura de colocar um bebé cá fora de mim em terras checas! Prometo suavizar os pormenores que não interessam a quem está grávida agora, e realçar todos os positivos!;)

Então, às 21h30 na quarta feira comecei a sentir contrações e a Rita a mexer tipo alien-furo-já-esta-treta-toda mas achei que eram as falsas, já que tive muitas dessas antes. Mas comecei a notar um ritmo e resolvi contar o tempo entre elas só para treinar para o dia em que a Rita fosse efectivamente nascer (LOL) e vi que estavam com intervalos de 8 a 10 minutos e duração de uns 15 segundos no máximo. Fui para a cama e levei papel para anotar, novamente como teste e treino antes do dia D.

Google em pleno funcionamento, li e reli sintomas e detalhes sobre trabalho de parto, mas, nãaaaaaa não é isto, pois o Google amigo diz que a duração é de um minuto, isto aqui é uma coisita que não passa de 15 segundos de cada vez.

Mesmo assim, avisei o marido via SMS, para não interromper o jogo online dele no PC com os amigos, que estava a contar o tempo entre as contrações. “É melhor nos prepararmos?” pergunta ele. “Não, não acho que seja isto. Eu estou a controlar, nada temas!” respondo eu. Eram 23h ou coisa assim. Às 00h ele veio para a cama. Adormeceu em 2 minutos e meio. Eu fiquei a remoer e a contar as contrações. Continuavam irregulares nos intervalos e o Google disse que tinha que ser mesmo regulares! Se era de 5 em 5, então as minhas de 5 em 6 em 8, outra vez em 6, e ops, duas seguidas agora? Isto não são mesmo contrações, não li nada sobre duas contrações seguidas sem intervalo, o máximo que isto pode ser é um parente afastado dos orgasmos múltiplos mas que enveredou pelo DARK SIDE e virou dor em vez de prazer. Isto não corresponde ao gráfico! Às 7h da manhã tratamos do Gabriel e vai para a creche e o melhor é ir ao hospital ver se ta tudo bem. Ops, mais uma tossidela, mais uma contração. Hummmm maldita tosse. Mais um xixi para a fralda. Aí vou eu a correr para o WC. Limpo-me. Hummm mas isto tá tão transparente aqui no papel branco… Deixa cheirar. Hum. Não cheira a nada. Mais uma tossidela. Mais uma descarga. Ui, é mesmo transparente e não tem cheiro nenhum. Ai que raios, deve ser o líquido amniótico!! Pah, são 1h30 da manhã, não dá mesmo jeitinho nenhum… Marido, acorda, acho que me rebentaram as águas e as contrações estão um bocado mais ranhosaaaaaaiiiiiiiiiii porra, que isto doooooooi!

Achas que aguentas a terminar de vestir enquanto vou buscar o André para tomar conta do Gabriel?” Diz-me o marido. “Claro! Vai lá, mas depressa simmmmmmmmmmm ai porra! Ai… Vai, vou terminar a mala.”

No carro, de 3 em 3 minutos? Não pode ser, acho que deve haver algum problemaaaaaaaa fuckfuckfuckfuckfuckfuck duas seguidas outra vez e o relógio deve estar estragado, passa-se algo estranhoooooooooo aiiiiiiicummmmcatanoooooooo

Chegamos à urgência da maternidade às 2h20 mais ou menos. A enfermeira parteira colocou-me os aparelhometros e foi buscar o médico de plantão para me observar.

Ok, colo do útero desaparecido, águas a verterem, 3cm de dilatação. Doutor, a minha epidural, cadê? “Ah, a enfermeira vai tirar sangue, leva para análise, e dentro de 1h vemos o resultado se podemos administrar” Whuoti? Doutor, a ver se nos entendemos: eu já levei epidural no primeiro parto. Acabou de me dizer que o segundo é mais rápido que o primeiro. Eu acho queeeeeeeeeeeeeaiaiaiaiaiiaiaiaiaaaiaiaaiaporraporraporraporraaiaiiaiaia uff… Acho que coisa, ta a ver? Já!”

“Don’t worry”

Sure modafoca, com essa cara de bebé deves achar que me enganas. Tenho o intestino a fazer uma festa pah! E o Google disse que se o intestino faz festa, a miúda vai sair em menos de 1h caraiiiiiii frakfrakfrakfrakfrakkkkkk

“Breathe deeply, it helps you and the baby”, diz-me a enfermeira parteira no meio desta conversa a cada contração minha. Eu respirava se eu pudesse! Afónica, com tosse que me dá estas contrações múltiplas maravilhosas, no dia dos opostos!!!!! Aiaiaiaiaiaiaia o que te safa é seres meiguinha e gentil a falarrrrrrrr Aiaiaiaiaiaiaia

E nisto tudo para a sala de partos com o marido atrás. Eram umas 3h15.

Luz amarela tênue, tipo jantar romântico à luz das velas, com todo o conforto, eu, o marido, as malas e a enfermeira parteira.

Tira sangue (vai logo a correr com isso para análise oh gajaaaaaaaaoaiaiiiiiii), administra-me a penicilina por causa da colheita vaginal positiva para infecção e dá umas dicas e vai-se.

Marido ali, sem poder fazer um corno mas silencioso (ah como é bom que os maridos não abram a boca nestes momentos!!!! Bom para eles se não querem ser assassinados!) e oferecia-me partes variadas do corpo dele para me agarrar quando estava com as contrações em força. Era isso mesmo que eu precisava dele, e foi o melhor apoio que pude ter:)

Ah e tal, vá ali ao chuveiro uns 20 a 30 minutos com água quente na barriga e nas costas, diz a enfermeira.

E a epidural?? (Fartinha de saber que só tinha passado 30 minutos desde que ela tirou sangue)

Vou pó duche. Um percurso de 10 metros, talvez, vá, eram só uns 5 se calhar, parei umas 5 vezes com contrações. Porraporraporraporraporraporra Começo a ficar com frio, a tremer das extremidades. A sentir-me fraca. Entro no duche. Aguentei 15 minutos e senti que ia desmaiar se continuasse ali. Agora o intervalo eram de segundos entre contrações. A posição de joelhos fez-me perceber que a cabeça da Rita estava logo ali.

Ajuda-me marido, temos de voltar porque senão a Rita nasce no duche e eu quero a minha epiduralllllllllll!

“O que me está a aguentar é saber que depois dela nascer eu já esqueci esta merda deste sofrimento e tudo vale a pena…” Digo eu a sussurrar ao marido, sem voz como eu estava só mesmo a sussurrar sexy ao ouvido dele para me perceber…

A enfermeira volta ao quarto quando eu entro e eu pergunto pela epidural. Ela observa-me e diz que a dilatação é de 5cm. Como se eu não soubesse que ela estava a mentir. Ela sabia que eu percebia de epidurais. Não podia dizer-me que eu já estava com 10 de dilatação porque anulava a minha vaga, longínqua esperança de ainda ter a epidural espetada nas costas.

Eu não conseguia respirar, com a tosse a catapultar as contrações, estava afónica e não conseguia dar um berro, queria chorar e não podia porque senão dificultava mais a minha respiração já de si muito deficiente e com a enfermeira a dizer-me que a minha bebé precisava que eu respirasse por ela, eu resolvi engolir tudo.

“Virar para o lado esquerdo, esta bola entre as pernas para dar espaço à sua bebé, e se quiser fazer força, pare de respirar, se quiser respirar, não faça força” sempre com uma voz doce, calma, suave, como um anjo a guiar apenas.

Mais dois puxões como ela falou, coloquei a mão e senti a cabeça da minha filha à porta. Ela não pode ficar ali empancada, anda lá mariquinhas, força! E fiz força, a cabeça saiu. A enfermeira pediu para não fazer mais força, foi ver se a posição era boa para sair o resto do corpo e lá “longe” disse que eu podia fazer força quando quisesse. E fiz, ela saiu e chorou logo. E eu senti um alívio taoooooooo grande!

Eram 4h20 da madrugada.

A Rita veio imediatamente para o meu peito, ficou ali, o marido cortou o cordão umbilical. Estávamos só os 3 ali: pai, mãe e filha, e o anjo da enfermeira que sussurrara docemente mentiras que me ajudaram a ultrapassar os momentos anteriores:)

Depois veio o medico, expulsa placenta, levei 4 pontos interiores mas nada de especial, (com anestesia em spray!!!! Ahahahhaha finalmente alguma anestesia!!!)

E pronto, foi isto:) Assustador? Bastante. Maravilhoso? Muito!!! Ter podido estar num parto mais humanizado com o marido como meu (quase) co-protagonista? Definitivamente uma das melhores coisas do mundo para um casal:)

Ser eu a controlar quando a minha filha saía de mim e vinha conhecer o mundo? Priceless:)

Senti-me fraca e depois forte, uma força enorme, que vem das entranhas, reforçada pela presença de uma parteira maravilhosa, que me guiou em vez de ordenar, que me fez sentir que fiz um bom trabalho com palavras finais de apreço por mim:)

A dor e sofrimento foram indiscutivelmente aumentados pelo meu estado de saúde. Teria sido bem mais fácil sem tosse e tudo e tudo. Mas, já passou, e a epidural é sobrevalorizada, devo dizer. Se alguém aqui tem receio de parto sem epidural como eu tinha, não tenham:)

Afinal de contas triliões de mulheres fizeram-no desde o início da humanidade:)

Obrigada por estarem desse lado! Obrigada mesmo mesmo:)

Rita: 3290g 49cm

Puro amor.

Marília Campos

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